Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de outubro de 2010

APERTE PARA CONFIRMAR...OU NÃO

O VOTO

OU

A GALINHA DOS OVOS DE OURO






Devagar com essa urna porque, pelo que nos querem fazer acreditar, nossa democracia é de um barro ainda mais instável do que aquele que – à parte o shakespeariano Próspero que afirmava ser o sonho a matéria de que somos feitos – nos fez, envoltos em Seu hálito divino, homens...e mulheres.


É pura mistificação essa ideia de que não se pode, pela importância que se lhe atribui e pelo intervalo entre um e outro, desperdiçar o (próprio) voto. Mesmo que pareça pouco razoável perdê-lo (e para sempre, ao menos até a próxima oportunidade) propositadamente, isso é uma opção de quem – santa Democracia quebradiça em sua cerâmica mal-cozida! -, compulsoriamente, tem de votar: não tendo a alternativa de não o fazer, se assim o desejar, que se o desperdice, se quiser.


Se há consequência para ato assim? Há; como há, seguindo determinada lei – e da qual não conseguimos escapar, mesmo que nos insurjamos contra ela com todas as nossas forças, salvo algum “milagre” -, consequência para todo e qualquer ato, sabendo-se mesmo que houve até para um ato de Deus, supostamente acima de todas as leis, ao brincar, como criança ainda em precário desenvolvimento estético-motor, com a deliciosa plasticidade do barro: eis-nos aqui a não (me) deixar mentir, embora a própria mentira seja uma das tais consequências do ato e não menos uma arma da democracia.


Soa a chantagem atraente – há os que a aceitam, desde que assim, embalada com papel incomum, raro nas mãos de qualquer um e que seja um diferencial, símbolo da exclusividade de uma “classe” de homens...e mulheres -, se dizer que, perdendo-se o voto agora, só daqui a tantos anos para se consertar os efeitos de um possível erro: se, na ponta do lápis, é assim mesmo, que andor alquebrado é esse que se tem de carregar até a próxima festa do padroeiro, sem o direito de, descobrindo o santo em falso, parar e demovê-lo das alturas, garantindo-lhe o direito de defesa? Ao contrário, do jeito que a procissão foi formada (alguns dirão que justamente assim já como consequência dos votos errados, abrindo espaço, sem trocadilho filosófico-reprodutivo, para que o ovo e a galinha prolonguem a eterna querela sobre o privilégio(!) nas primícias mundanas), garante-se, mesmo com toda a obrigatoriedade, assento acolchoado na plataforma que se sustenta nos ombros dos fieis, contando-se com o esquecimento entre os calendários.


Outro ídolo que se quebra facilmente, a memória não é mais um instrumento de cidadania, sendo o esquecimento, apesar da toxicidade dos seus eflúvios, o cano pelo qual escapa a pressão diária: de ser cidadão consciente, de não poder não sê-lo, de ter de carregar andores de obrigações “legais” por andares sem conta nesse alto edifício sem elevador; enfim, de jamais errar...


Numa democracia em que há o certo e o errado, há algo errado: para muitos, “certamente”, o errado aqui sou eu, ao falar assim, desprezando a Ética. Errado está não porque o erro foi parar aí, mas porque o autonomeado certo, como um deus sem misericórdia, ameaça, com sua mão forte – retórica que seja, mas nem por isso menos pesada -, o barro comum: de um lado, prometendo-lhe, se andar na linha (certa) a continuidade de um paraíso (que se admite assim, sem contestações), e de outro, tendo em vista justamente o “outro lado”, o inferno – que, como se sabe, é sempre...o outro.

CHICO VIVAS

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A ESCOLHA É LÓGICA



Na minha infância, coisa que já vai longe no tempo, não era raro, considerando que então as mudanças não andavam na velocidade contemporânea, ver nas casas (nas sinceramente mais piedosas e naquelas que, com hipocrisia bíblica e atemporal, levavam em conta as aparências) um genuflexório: o que, a olhos pequenos, parecia uma estranha cadeira, com seu “assento” demasiadamente baixo, mesmo para uma criança, e um encosto hiperdimensionado, visto assim até que esses mesmos olhos aprendessem que o tal assento era para os joelhos, com acolchoado diretamente proporcional à necessidade de cada um, autoimposta ou vinda de terceiro com essa legitimidade canônica, à custa das rótulas, de purgar seus pecados. Hoje, facilmente, se enxergaria aí – apesar de ser improvável que os olhos ainda recaiam sobre peça assim – um instrumento (a mais) de tortura, além de um exemplo condenável de masoquismo anacrônico.


Embora a Política tenha uma ciência ad hoc, parece se inscrever mais no rol das paixões humanas – entre as grandes. E alguns se valem justamente da (falta de) lógica que se costuma associar às paixões como prévia prova de inocência, se flagrados no delito de fecharem os olhos a certa evidências, seja em nome do governo de ocasião ou da oposição da vez, intimamente até se justificando (quando o olhar próprio é mais crítico e inclemente que os temidos alheios) com um projeto de longo prazo em que, com maquiavelismo sob medida, os fins assumem sua devida supremacia.


Isso tudo me faz lembrar uma frase, farto delas como ele é, farto dele como jamais fico, de Michel de Montaigne – ele próprio tendo experimentado, sem paixão, reconhecendo-se sem talento natural para isso, a vida política, por duas vezes prefeito de Bordéus: “CABE AO MEU JOELHO DOBRAR-SE, MAS NÃO À MINHA INTELIGÊNCIA CURVAR-SE”.


Chega a ser constrangedor observar como algumas (boas) cabeças – deixai as paixões para o peito, ó cabeças! – insistem em que dobrar os joelhos, isso sim é que é indigna subserviência de um homem: seja a um outro homem ou a um deus qualquer; no entanto, aceitam, com passividade que talvez lhes dê a sensação de carícia num idealismo que tem vergonha de se mostrar em todo seu romantismo, que lhes dobrem a inteligência: seja à direita ou à esquerda – embora isso, hoje, já não faça o menor...”sentido”.


A paixão, que tem seu lugar na vida do homem, é quase sempre uma responsabilidade pessoal, mesmo que envolva mais alguém, já que se apaixonar por si próprio é, entre todas as ilogicidades a que temos direito, a mais sem graça. A política, sobretudo, ainda que não prescinda do ato individual, sendo este uma necessidade formal, é coletivo.


A visão, a um sinal, de uma multidão se ajoelhando, em sincronia de genuflexões carrega alguma beleza plástica, nem que seja por se testemunhar esse raro momento de união, tão apaixonante como a paixão que evola com um grito de gol em estádio cheio, à parte a feiura de qualquer ato, mesmo que em estado de ereta confiança, realizado, compulsoriamente, contra a própria vontade. Deixar a inteligência se dobrar a um dado sinal, sem ponderações equilibradas, é abrir mão da lógica: aquela que garante que sejamos apaixonadamente(!) cidadãos.


CHICO VIVAS


Share/Save/Bookmark

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails