sábado, 15 de maio de 2010

SE FILO, POR QUE NÃO QUILO?






Filosofar é aprender a morrer, dizia certo filósofo – e com razão: aliás, se há uma coisa de que os filósofos se orgulham de ter, esta é a razão, mesmo que, caindo na armadilha da própria filosofia, não possam admitir, ao menos publicamente, que cultivam o orgulho, anda que (apenas?) o de sempre terem razão, não adiantando, aqui, como a querer revelar solenemente meu engano, eu que sequer sei filosofar e não tenho, assim, a razão a meu favor, lançar mão de uma filosofia cética, pois mesmo uma desse jeito e que, por princípio, duvida de tudo, não deve duvidar de si mesma, sob o risco de jamais sustentar quaisquer ideias.


Enquanto não se tem certeza sobre algo, ou enquanto não se adquire coragem suficiente para bater no próprio peito, ainda que fazendo isso retoricamente, e afirmar ser o dono da verdade, tudo é hipótese, espécie de purgatório das ideias, não se sabendo então se seu destino será virar cinzas ou ascender para uma verdade incontestável. Passada tal etapa, já com (a) razão, é aí que o inferno começa, sem que, tantas vezes, se tenha tido tempo para gozar o tão efêmero paraíso, na medida em que, sob as luzes, holofotes que sempre se voltam para as verdades da hora, atraem mais atenção, seja a dos simplesmente invejosos, filósofos ainda em hipótese(s), ávidos por rebaixarem aquela verdade ao limbo das farsas, seja a dos que, seguindo métodos rigorosos, contestam-na, apresentando, claro, suas próprias razões (algo obscuras, para parecerem mais “reais”): e muitos destes, que não tiveram oportunidade de expor suas verdades, acham-na agora, pela contestação de uma outra.


Tenebrosos tempos estes para (se) filosofar! Agora, quem aparece com suas verdades, afirmando ter razão, é mal-visto; é visto como um pedante, alguém a quem falta humildade, confundindo-se então a modéstia em não se vangloriar de ter (a) razão com o legítimo direito de afirmar tê-la, mesmo que isso não dure tanto, sendo necessário que se tenha humildade para aceitar essa verdade (na verdade, que a sua era uma verdade de mentira). Tornou-se simpático não se afirmar mais nada categoricamente, mesmo que se acredite ter (toda a) razão, só para não humilhar os outros, agindo como um pusilânime que está sempre disposto a mudar de ideia.


Filósofos hoje há “de carteirinha” (e sentem orgulho de ser assim: e devem ter lá suas razões para isso). Filósofos hoje não querem aprender a morrer – por mais que essa seja uma inarredável verdade, embora, para os que creem na eternidade, uma mera hipóteses ainda –, antes, querem aprender a viver, ainda que para isso não sejam assertivos, mas reticentes...abrindo espaço para uma subsequente reparação. Filósofos hoje são uma categoria em extinção, sem que haja campanha visando a sua preservação. Filósofos hoje são uma anacronicidade, como já eram ontem, como sempre hão de ser: e isso digo eu, com a categoria de mero especulador, com o peito já muito amassado de tanto aí bater, a cada verdade que suponho ter, a cada razão de que suponho ser indiscutível dono.


Aprender tudo é morrer...como um curioso de verdade(s).



quarta-feira, 7 de abril de 2010

ESCÂNDALO SEM ORIGINALIDADE





“Por várias vezes falou em se lançar ao jornalismo, e sempre seus amigos lhe diziam: evita fazer isso. Seria a sepultura do belo. (...) Não resistirias à constante alternância de prazer e de trabalho de que é feita a vida dos jornalistas, e resistir é o fundamento da virtude. Ficarias tão encantado por exercer o poder, por ter direito de vida e morte sobre as obras do pensamento, que te tornarias jornalista em dois meses. Ser jornalista é passar a procônsul na república das Letras. Quem tudo pode dizer chega a tudo fazer. (...) Já tens em demasia as qualidades do jornalista: o brilho e a rapidez do pensamento. Não te privarias nunca de um dito do espírito, embora fizesse ele chorar a um teu amigo. (...) O jornalismo é um inferno, um abismo de iniquidades, de mentiras, de traições, que não se pode atravessar e de onde não se pode sair puro, senão protegido, como Dante, pelos louros divinos de Virgílio”.

HONORÉ DE BALZAC (Ilusões Perdidas)



Chico Vivas




Se é para vender jornal, então uma foto...sensacional(ista), uma apenas a mais na longa lista de clichês à venda nesse diário comércio entre a nossa avidez, insaciáveis pelo que quer que seja (bem vendido, bem fotografado) e a necessidade dos fabricantes de que-quer-que-seja(s) em rolar os estoques.

Assim, que tal a foto de um homem, dos mais comuns, aparentemente; de altura, por enquanto, imprecisa – e talvez esse seja mesmo um detalhe sem maior importância, a não ser que pouco ou nada sobre ele se tenha a dizer, o que fará de um ou outro centímetro motivo de acaloradas discussões? E ele está, como se a nossa espera, no alto de um prédio, algo desequilibrado (não o prédio), não se sabendo ao certo se esse seu caráter trôpego diz respeito ao seu corpo eventualmente alcoolizado ou ao seu espírito pusilânime. De fato, se fato realmente há aqui, dá a impressão de que, a qualquer instante, ao menor sopro, sob a inspiração da plateia que embaixo vai aumentando, impossível já contá-los, mais ainda de se dizer de onde surgem, ele poderá cair: que tal uma foto assim?!

A foto enquadra o fato de um ponto de vista “baixo”, um tanto distanciado, mas presente o bastante para não deixar escapar à lente um lance sequer. Pode-se ter a visão da multidão, clamando o que a foto dificilmente revelará; e com essa posição também se cria a ilusão de que a altura é bem maior do que deve ser na realidade – e leitor nenhum que se preze, devorador desse jornal de cotidianos flagrantes, um jornal que não preza tanto assim seus leitores, embora lhes ofereça banquetes bizarros, vai até lá, próximo do homem, para tirar a prova, com régua na mão, de sua altura de verdade. O ângulo escolhido alcança seu objetivo de tornar tudo o que vê, tantas vezes um quase-nada, mais grandioso do que é, e é possível que ali nada haja de tão grande assim: nem o prédio em si, que pode ser menor do que aparenta, nem o homem em si, que pode ser somente de altura medianamente baixa, e até mesmo a tal multidão, então supervalorizada em seu número de eventuais passantes e de titulares desses flagras rotineiros.


Quem vier a ler o jornal, mais interessado na imagem e buscando as palavras só para confirmarem que seus olhos não se enganaram, de cara, desvenda esse mistério-de-rua, enigma ao ar livro: é tão-só mais um homem qualquer, no uso legítimo de seu direito de viver com dignidade ou, não a tendo mais, de morrer à hora em que desejar; ou ainda, não pretendendo deixar tão cedo (não se conhece ao certo sua idade) esta vida, deseja apenas para si mesmo a atenção dos outros, mesmo que tantos desses alheios já sejam quase profissionais em se aglomerarem, atendendo a um chamado de sua natureza, amante de qualquer fato que fuja, mesmo que só aparentemente, a sua própria rotina, embora eles mesmos experimentem, sem toda essa alegoria pública, mortes diárias, carentes, no entanto, desse espetáculo.



O homem no alto do prédio – que, aliás, é alto mesmo, e não um truque do clichê vespertino, ainda que não dos mais elevados, ao menos se tomarmos como medida referencial os mais altos prédios – é alto, ainda que, mesmo acima da média da altura dos homens comuns, não seja, entre os agigantados (uma delícia para o jornal), páreo para este grandalhões de livro de recordes; e esse homem não alimenta qualquer intenção de se atirar daquelas alturas, seja porque encara sua vida medíocre de homem assim com subida dignidade (quantos lances, essa “subida”!), seja porque, discreto na sua vida diária, tanto que não se o nota quando ele próprio se faz passar por eventual pedestre, arrancado de suas divagações habituais por um homem no alto de um prédio, hesitante, queira viver apenas alguns minutos de exibição fugaz.


Ele lá está justamente para salvar uma vida: mas que não se diga isso ainda aos observadores da cena, pois seria, sobre suas cabeças acaloradas, um balde de água das mais frias (sem o devido refresco), fazendo-os se dispersarem, inviabilizando então a provável sensação da foto e, em consequência, a venda provável de jornais, bem acima da média dos dias em que as fotos na primeira página só estampam as baixezas rotineiras, inclusive a de homens “altos” circunstancialmente rebaixados à altura dos mais comuns.


E não é a vida de um outro homem, numa solidariedade entre semelhantes, que está em perigo, pondo, na tentativa de salvá-la, em risco a própria vida do homem que vemos e do qual já sabemos ser alto para a média dos homens conhecidos por serem medianos. Esse homem que insistentemente vem se fazendo citar aqui, desconhecido seu nome ainda, está ali para salvar a vida de uma ave potencialmente suicida, que a todo instante ameaça se atirar. Como a tal ave, um pássaro canoro em crise durante seu período de muda, mesmo sendo, em tamanho, páreo para seus semelhantes, é, ainda assim, pequena em demasia para os enormes vãos dos olhos da multidão faminta que só enxerga, na cena, o homem, e nada vê da ave, porque muda, podendo ouvir do pássaro suas despedidas afinadas, como se um cisne em canto derradeiro.


Para apressar a história, porque isso é jornal e não um livro de mistério – um livro desses quer prender o leitor o máximo que pode, já o jornal precisa apenas de sua fidelidade diária – e porque, embaixo, os repórteres, uma multidão deles, entre os quais os profissionais que chegaram de pronto e os amadores que sempre estão de passagem, gritam que precisam entregar a matéria, como se pedissem urgência ao homem, e este, como se num ato de suprema coragem (que leitores elevados de jornais baixos preferem chamar de covardia), faz, lá no alto, uma manobra arriscada para salvar o pássaro, quando a ave já estava em pleno salto mortal.


Sem asas, o homem cai. Salva a ave, satisfaz muitos desejos, concentrados nos jornais, com uma sequência de fotos sensacionais. E ainda mais do que o esperado em ocasiões assim, já que a primeira página vai estampá-lo no chão, cercado pela multidão reunida artificialmente (porque muitos só esperavam o salto, sabendo que dali, agora, do chão, ele não passaria), com o pássaro, vivinho da silva, na mão, tendo, repentinamente, recuperado a voz para um réquiem.


Louve-se o jornal por, num esforço extremo de reportagem, sensacional mesmo, ter descoberto que o tal homem, anônimo até então, apesar do autor da matéria descrevê-lo como um suicida em potencial, que nem a beleza de um pássaro heroico conseguiu salvar do seu desejo de morrer por ter, cantor, perdido a voz, tinha, como todo homem, de qualquer altura, um nome: e tinha nome de ave – chamava-se Maria. Seu sobrenome, comum demais para um cantor de hoje em dia, mesmo os muito vivos, um Silva mediano, desapontou, quanto às vendas, o jornal.


Mas, sem escapar de mais um clichê, amanhã, todo leitor sabe, em suas angústias repetitivas, é um outro dia – como também sabe a multidão de homens eventuais.




CHICO VIVAS

sábado, 27 de março de 2010

CURSO INTENSIVO DE TEATRO PARA A VIDA TODA


Vi o espetáculo e o aplaudi.

Não vou a bastidores: gosto da ilusão. Tu és a exceção que faço, tão concreto que és; e mesmo assim, eu ainda tento desatá-lo, espetáculo aqui entre nós, do real e rechear a cena com ficção, mais palatável a essa minha língua demente, que mente somente para me dar asas, dar-me alguma imaginação.

Aplaudo sem trama, sem drama. No escuro, às velas, no claro, caravelas projetadas no rosto como sombras chinesas, navegando avante nos olhos puxados - este para leste, aquele, o(u)este, olhando para si, em circunvoluções de mar. Não desço aos porões; gosto da liberdade que me prende ao não me deixar “cativar”, acorrentando-me a mãos, gosto de me deixar seviciar por beijos inclementes, a golpes de chicote quente, largo sobre a carne tenra, como ave nova em voo de estreia, subindo sem cair, caindo sem pestanejar: que pestanas não têm os pássaros, que cílios não têm os lábios que cantam a canção do norte, quando então se dirigem ao sul.

Quem me vê, que espetáculo verá? Verá, talvez, no palco o bastidor revelado nas mãos brancas da virgem antiga, com agulha entre os dedos avermelhados, bordando um desenho que lhe copia as pausas do coração, a legenda de uma futura vida ou a memória de uma vida que passou sem que pintado se a tenha: bordado? que dirá!

Se for (a)o porão, que navio me conterá? Que cargas carregarei? Que tripulação conduzirei? Que ratos me roerão - ou será que os roerei? Serei rei em escasso peito? Se já escasso assim, errei de navio ou serei cativo das minhas sinceras ilusões? Que sei?!

Fecho-me, cortinas cerradas, esburacadas, deixando-me devassar pela luz dos olhares ansiosos por uma lágrima que se ajuste àquelas que não (me) choraram ou pelo sorriso escapado à boca que chora no lugar dos olhos, porque, úmida com é, não precisa fingir.

Vou-me assim desmascarando. Não por ter a pintura da cara arrancado, mas pelas penas que levo coladas à antiaderência da minha paixão descascada, descamada em todos os seus níveis mais íntimos. Por onde sigo, aplaudem-me; mas isso é só o silêncio espalmado, é só o eco de corações imobilizados, são só os fantasmas do amor em rima não sentida - quanto o desejo era senti-la: brancos versos, prosa rimada, ou ainda melhor, tudo calado, comunicando o que “cinto”, sem calça a me apertar o íntimo, um longo beijo que consinto que seja correspondido, sentindo lacrar o envelope de uma carta chegada com a saliva ainda ardente de um desejo atrasado, uma despedida que leva a...deus. E poderá até seguir aberta, pois para que serve o gosta da minha língua, se outra boca já não mais haverá?

Monologo, em diálogo comigo mesmo, com todos os que cruzam esse meu caminho em diagonal. Dou a deixa e espero...e só espero: que a deixa era mesmo só para esperar...esperar...Agradeço, braços cruzados sobre o peito, inclinado para a frente, dobrado por dentro, dispendioso por trás desse espetáculo todo de louvores em noite clara, com sol amargo, num meio-dia violeta, ou em qualquer entardecer cristalizado em calda de açúcar mascavo. Lambo-me todo para reabsorver minhas ilusões, já que postos não há onde eu possa reencher-me com f(r)icções de outras mãos sobre minha testa a arder de palavras a queimar, todas tão vãs!

E vou-me...Canção de madeira queimada, agora lápis de cor sobre o alvo do tempo, escrevendo o que se desfaz logo que anoitece e tudo, queimado dia, é só canção.

CHICO VIVAS

sábado, 13 de março de 2010

AVISO: ISTO É UM LIXO









Fiquemos combinados assim: o mundo é mesmo um lixo.

O lixo produz lixo, como se, reciclando-se a si mesmo, o lixo deixasse, provisoriamente, de sê-lo, ascendendo a outra coisa e, nessa sua subida, não abrindo mão do que tem como seu legítimo direito de também lixo produzir, pois, afinal, é filho de Deus (sem que eu queira, eu minha covardia ontológica, dizer que Deus é mais um lixo).

O luxo, tido por muitos, provavelmente os que fantasiam um luxo de vida, sem, no entanto, terem sequer passado perto dele, como uma inesgotável (e principal responsável) fonte de lixo, sem nem permitir que esse lixo de seu luxo se torne fonte de uma energia qualquer, porque faz parte do luxo exercer seu legítimo direito sobre aquilo pelo qual pagou, e caro, mesmo quando, perdida sua original utilidade – e a utilidade do luxo pode ser não ter mesmo qualquer função útil, sendo isso essencial para uma verdadeira vida luxuosa –, o luxo é, inequivocamente, agora, um lixo...a mais.

Foi-se o tempo – o tempo ora é um luxo a que poucos têm acesso e que produz seu próprio lixo em forma de um passado não-reciclável, ora é um evidente lixo, especialmente para aqueles que, num luxo só, vestem-se, dia e noite, com os reluzentes atavios de uma eternidade prometida – em que se podia esconder o lixo debaixo do tapete, seja pela pressa em se dar ao lixo de então seu destino mais habitual, seja porque, rigorosamente, nem lixo havia, apenas o resultado residual do hábito (para passar o tempo) de se varrer a casa, o que, quando feito por obrigação, ainda que num espaço tão exíguo que o menor dos tapetes poderia cobrir toda a área disponível, parece uma eternidade, um varrer que não quer acabar mais.

Lugar de lixo é no lixo: é o que, até há bem pouco, se dizia, com ar professoral, com intenção pedagógica, quase um slogan de vida civilizada. Agora, o luxo é não tratar o lixo como lixo, mas tratá-lo bem, tratando-o de tal maneira que ele ressurja, às vezes, literalmente, das cinzas, chegando ao requinte de se tornar, reciclado já, objeto de luxo, mesmo que o luxo da vez se restrinja a se passar por alguém preocupado com seu mundo, para além do seu próprio mundinho, como alguém que, mesmo aspirando (será que isso cheira bem?) à eternidade, tomando esse tempo no mundo como um lixo passageiro, preocupa-se com o mundo que vai deixar para trás, reconhecendo que alguns, neste mundo, podem preferir viver seu próprio tempo ansiosamente, desesperadamente, talvez por não acreditarem em nenhum outro, a ponto de vivenciarem suas horas com uma avidez que sequer lhes permite, gozadas já as horas (e nem todas elas são engraçadas), que se ponha o lixo daí resultante em continentes adequados, prontos para nova reciclagem, num refazer de mundo ad aeternum.

E dizer, tão lugar-comum como é, que não é de hoje que isso é assim, que o mundo é um lixo, é um dos poucos luxos a que tenho direito. Acho mesmo que o único. Foi por isso que, luxuoso, pus aqui todo este lixo.




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sexta-feira, 12 de março de 2010

A ARTE DE SER DONO DA OBRA









A arte, querem nisso acreditar os homens, como se assim a legitimassem, é a expressão do que há, ou ainda resta, de divino em nós, supondo que todos nós sejamos, potencialmente, ao menos, capazes de fazer arte, para além das malandragens de pirralho aprendendo as duras lições da liberdade limitada. Mas, talvez esta a arte seja não mais, se pudermos, nem que seja para brincarmos com as palavras, falar desse modo, o que em nós resiste, como cicatriz a sempre nos lembrar da ferida, como uma falha ontológica em um ser que deveria ser perfeito, ou quase, sendo que, ao contrário do que se pensa, a arte pode muito bem ser o que há de escandalosamente humano em algum deus – “criador” ou não.

Se for algo, genuinamente, Seu a arte, a nossa, alinhando-nos, sem intenção declarada, a Platão, não deve passar de uma arte falsificada: falsificação grosseira ou uma fina falsidade: o fato é que, assim, só nos cabe especular, já que não somos, imagens que sejamos mesmo Dele, espelhos confiáveis para afirmações categóricas sobre Seu ser, dono que é, único, das verdades apodíticas.

Sua arte, sejam astros ou satélites, parece trazer em si, como parte da própria concepção de obra acabada, luz que dispensa um projeto posterior de “esclarecimento” que lhe permita ser apreciada, independentemente da hora, do ambiente e das circunstâncias em volta. Já as nossas obras, mais concentradas no seu ser, fazem da iluminação, às vezes, uma arte à parte, luzes estas que estão a serviço da melhor percepção pelos humanos sentidos. E uma boa iluminação contempla tanto todo o ambiente, num jogo equilibrado de luz e de sombra, de revelações e de ocultações, como também contempla as obras, especificamente, com foco a elas diretamente voltados.

Raro é, e isso não me parece um defeito do projeto, embora eu próprio entenda um pouco mais, do pouco que sei no geral, de penumbras várias, que uma luz que pretende incidir, diretamente, sobre uma arte, restrinja-se, unicamente, ao contorno estrito dessa mesma obra, não ultrapassando as fronteiras de sua moldura ou as linhas de sua escrita, resvalando sempre para fora, tal qual, numa brincadeira já nostálgica, uma ciranda generosa que aceita, a toda hora, um alargamento de sua roda com a inclusão de novos participantes para os giros que lhe dão sentido, mas que, pela tontura dos volteios incessantes, acaba, em algum momento, expulsando um ou outro “brincalhão”.

Deixo as obras de arte para os que sabem dela: os que sabem fazê-la(s) arte ou obra(s), e para os que sabem compreendê-las, como obra do homem ou como arte de Deus. Aqui, fico com as sobras...de luz que, querendo se jogar, preferencialmente, sobre a obra, num abraço envolvente e possessivo, sem olhar para mais nada, para mais ninguém, ilumina o que não estava perfeito no projeto de iluminação, talvez nada além do “vão” intervalo entre uma arte e outra obra. Para os olhos, sinceramente ou falseando a função, que caem sobre aquilo para o qual lhes puxa a luz, nada existe fora do que eles mesmos alcançam, a não ser os intervalos sem significados e vãos sem muito sentido – a não ser o de serem o que já são, a olhos vistos, ou seja, vãos, e não porque os olhos que (os) veem assim sejam olhos vãos.

Para meus olhos, olhos que são o retrato de um sentido, há signos espalhados nesses espaços, aparentemente vazios. Não sabendo, eu, fazer arte, passado, há muito, meu tempo de perdão garantido para as molecagens da idade, eu saio por aí (na verdade, por aqui) escrevendo, focando um ponto e deixando-me absorver pelas valas comuns que separam, como intervalos necessários a um mínimo de compreensão, as palavras, casocontráriocomosehaveriadecompreenderoquedigosemparar?

De tudo o que escrevo, nada sairá, por melhor que seja a “iluminação”, por melhor que seja a luz de generosos olhos-leitores, generosos, para não dizer, contra mim mesmo, uns perdulários, ao se gastarem assim, aqui, comigo, por mais que tais olhos se debrucem sobre pontos específicos, mantendo-se circunscritos às invisíveis marcas que desenham as margens: se quiserdes vos arriscar, olhos, arriscando a energia de vosso olhar, aconselho-vos, olhos, a não vos deterdes, como se diante de uma obra de arte, naquilo que ora ve(r)des, olhos de qualquer cor, pois, em havendo algum sentido, aqui, significado só se achará com a ajuda da luz – quiçá, da “Luz”, numa iluminação em definitivo..

Talvez seja só um ponto – quem sabe se justamente o ponto final, o que (já) está por vir. Sei que, tendo à disposição uma ampla sala, atulhada, quase que numa experiência barroca, de obras, cópias de uma falsidade (ainda que com a intenção verdadeira de salvar lembranças), é fácil cair na armadilha e deixar-se levar pelo que se vê, mesmo que, para não parecer que se engole tudo, exerça-se o legítimo direito de criticar, ainda que as obras sejam demasiadas, a ponto de se apresentarem encostadas umas nas outras para que caibam nos limites do ambiente para elas disponibilizado.



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A MALUca (e a) ENDIABRADA




É notório, sabendo disso mesmo aqueles que não têm notório saber a respeito do que, entre os saberes, é mais notório, chegando-se mesmo, com certa condescendência, exibindo sentimentos pouco sinceros, a se atribuir um caráter mais notório ao saber de quem não o tem tão notório assim, empregando seu tempo com coisas mais úteis, ou, pelo menos, mais necessárias a sua própria sobrevivência, que não adianta nada saber de tudo, e ser notoriamente conhecido como tal, se na hora da fome, só resta mesmo a vontade de comer, agravada, ainda por cima, pelo peso de todo saber acumulado, não servindo este, nessa hora, nem para encher o mínimo vão de uma barriga vazia. E o que é notório – sendo eu mesmo notório em digressões, em começar a dizer algo, como agora, e, interrompendo o pensamento, entremeando-o com outros tantos, só depois a ele voltar, nem sempre com êxito – é que quem diz o que quer ouve o que não quer.


E o que se quer dizer com isso, como se fosse um cala-boca para aqueles que dizem o que pensam, já se sentindo livres para pensarem o que quiserem, é que é melhor pensar duas vezes, ou mais, antes de sair por aí dizendo o que quer, já que o resultado, é notório, pode ser o ter de escutar o que não quer, por vezes sequer com direito a, num recrudescimento infantil, tapar os ouvidos.


Supondo-se, no entanto, que quem ouve quem então diz o que quer e, devolvendo-lhe, diz-lhe, fazendo-o escutar o que não quer, o que quer, este mesmo estará dizendo o que quer, o que libera o que antes dizia o que queria e por isso escutou o que não para, quase que numa brincadeira (a sério) de roda sem parar, novamente, dizer o que quer, já que, como se disse aqui, quem lhe disse aquilo que não deseja escutar, disse-lhe, livremente, o que queria, obrigado agora a ter também, queira ou não, de escutar.


Escuta aqui!, alguém me dirá, ameaçando, com frase assim, com exclamação assim, me dizer o que quer e que, provavelmente, não é o que eu quero ouvir, que conversa é essa, toda essa história de disse-me-disse: que sentido isso tem?


Isto, tenha lá o sentido que tiver, até mesmo se não tiver nenhum, é o que eu quero dizer – e se alguém não gostou, paciência! Tem todo direito de dizer, igualmente (embora ache difícil que alguém diga o que quer do jeito torto que eu digo), o que quer, não se importando então se isso é o que eu quero ouvir, até, preferencialmente, optando pelo que eu não quero, com troco bem-dado por ter sido levado a escutar o que não queria, dito por mim, exercendo meu direito de dizer o que bem entendo, ainda que eu, por hábito de dizer, saia só dizendo, não ligando para o fato de que aquilo que digo, e que é o que quero dizer, seja compreensível, não apenas para quem, sem desejar, tem de me ouvir, mas para mim mesmo, que nem sempre (me) entendo.


Vá-se entender!




Chico Vivas


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