terça-feira, 31 de maio de 2011

MORRER...DE SAUDADE







Todos os filósofos (nos) parecem sempre sábios, embora, por mais que eles saibam, ignorem ainda muito – e talvez seja só mesmo o reconhecimento da própria ignorância que os torna, verdadeiramente, sábios (“Só sei que nada sei”, Sócrates).


Todos os sábios, se não o são, na nossa fantasia, deveriam ser sempre velhos – e assim porque talvez, mesmo com todo o apego que mantemos, com a força com que nos agarramos à vida, queiramos debitar na conta da (nossa) juventude a falta de sabedoria, na crença de que, com o tempo, ela acabará vindo: e esse raciocínio tanto pode ser uma demonstração de sabedoria, ainda que jovens, quanto de ignorância, mesmo que já velhos.


Todos nós, apesar de nem sempre termos consciência disso, filosofamos, mesmo que não ostentemos o título de filósofo, mesmo que não tenhamos frequentado as respeitáveis e sisudas aulas das Academias. E somos também, todos nós, sábios: e o somos quando nos apegamos à vida; quando louvamos a (nossa própria) juventude; quando, generosamente(?), deixamos a sabedoria de fato para os velhos, como se então acreditássemos que a nós ainda resta muito, enquanto que a eles...o que lhes resta, senão se dizerem sábios? senão atraírem a complacência melancólica para sorrisos já murchos? senão seu único passatempo: perguntar-se, enfim, a essa altura, o que lhes resta?


Sempre que nos interrogamos, filosofamos. Sempre que duvidamos, filosofamos. Sempre que nos perguntamos o que (nos) resta, filosofamos.


Um filósofo – provavelmente chegando a essa conclusão quando sua juventude já era coisa do passado – disse, e eu repito aqui, sem ter a pretensão de parecer sábio, mesmo já não sendo jovem, que “Filosofar é aprender a morrer”.


A vida, sábia como ela só (quem sabe se por ser o que há de mais antigo neste mundo), ensina-nos até como devemos encarar seu próprio fim – fim este que coincide com o nosso –, ensinando-nos, ao mesmo tempo, esta outra lição: que contar como se apaga o fogo ajuda a controlar os incêndios, mas não destrói a possibilidade de, quando o dia frio chegar, novamente, uma outra fogueira se acender. Porque a vida, independentemente do direito pessoal de se crer em sua continuidade ou não para além-aqui, se refaz acolá...no jovem que se agarra aos seus poucos anos como se eles fossem um porto-seguro, não passando, eventualmente, apesar da aparência de madeira sólida, de tábuas-de-salvação se decompondo.


Finda a fogueira, ficam as brasas com calor, que vai diminuindo, até só cinzas restarem: isso é a saudade. E como dizia o escritor (Guimarães Rosa): “A saudade é a permanência do ausente”.


Portanto, enquanto houver (alguma) lembrança, a vida está garantida, mesmo que só no fundo do coração – que é, no entanto, apesar de toda a poesia que inspira, o que de mais frágil há em nós.


CHICO VIVAS

quinta-feira, 21 de abril de 2011

LAMBE-LAMBE PARA NÃO ESQUECER AS LAMBIDAS DA SAUDADE





Não vai, aqui, nenhuma História, e também não há qualquer sombra de Arte, embora o que por aqui vai (se) pintar, (a)pareça, em alguns instantes, algo sombreado.


Uma dessas pinturas que exigem, de cara, certa distância dos olhos para que se lhes entenda(?), para que se lhes perceba, já que se próximos demais, ou não afastados o suficiente esses tais olhos, o que se verá pode não passar de nada mais do que uma mancha, um borrão multicor, resultado da dissolução dos contornos familiares a certas figuras, como se seus limites, de uma hora para a outra, se rompessem, e as cores, então “aprisionadas” nas linhas do desenho, atendendo a leis mais conhecidas no (nosso) mundo natural, escapassem, e, na pressa, porque há tanto contidas, ansiando por liberdade (ou querendo apenas se salvar, através dessa estreita abertura), misturassem-se todas, num atropelo de arco-íris desorganizado.


As lembranças são assim, e não porque façam história – mesmo que o façam sem tanta arte, como se colassem retratos, ao acaso, num álbum improvisado, não atendendo à ordem cronológica dos fatos, nem “se lembrando” de lhes dar legendas que lhes identifiquem, acreditando, numa atitude francamente contraditória, que não se precisará dessas etiquetas para se dizer, com educação, de que é esse (retrato) – será de algum Renato: mas qual?), de quem é aquele rosto ali colado, calado, agora, sob uma proteção de plástico, nesse livro cartonado, de páginas originalmente em branco e que virão a ser “escritas” não com palavras, mas com memórias.


Ora, se se crê, firmemente, que se recordará sempre dessas faces, sem o auxílio prestimoso e manuscrito de um “fulano de tal”, ou de “em tal lugar”, “no dia tal”, para que, então, se colecionam essas fotografias, instantâneos de uma vida marcadamente fugaz? E as lembranças assim são porque requerem um olhar sobre elas, a certa distância: de muito perto, um rosto, por mais definido em detalhes dos quais nem mais se recordava, não passa, já, de pontos (de vista); com olhos além do indispensável, numa “comparação inversa” com um quadro impressionista, o retrato se torna a precisa fotografia de um subjetivo borrão.


Todo mistério de se cultivar saudades (porque é demasiado ingênuo, mesmo que se acredite sinceramente nisso, dizer que se prefere não cultivá-las, “matando-as” com uma constante e viva presença) está em saber seu exato lugar na (nossa) vida, de onde se possa contemplar a saudade, identificando-a num retrato nítido, sem o excesso de proximidade que desfaz o encanto, e sem o exagero das lonjuras que “desencanta” a saudade, fazendo-a, tão-somente, mais um dos nossos cotidianos esquecimentos.


Nessa vasta sala de saudades, somos, ao mesmo tempo, os olhos-espectadores e o quadro admirado, podendo ser que tal simultaneidade se desfaça, e ora sejamos a própria saudade vista (de que ponto?), ora sejamos os saudosos olhos apontados diretamente para um quadro. É preciso, nesse fenômeno ótico, não confundirmos o cansaço natural a que os olhos estão submetidos (por se os ter forçado muito em aproximações que não nos revelaram ou em afastamentos que tudo sempre nos esconderam) com uma saudade mais ou menos nítida. Os olhos que enxergam a saudade apenas copiam a forma, o desenho dos que, com maior ou com menor eficiência, sempre observam o presente. Esses olhos-de-agora, estejam já precocemente cansados, por terem antecipado saudades (quando rostos são ainda tão presentes) ou naturalmente gastos (sem que tenham experimentado as devidas saudades), só veem quadros contemporâneos, mesmo que se deliciem com obras de arte passadas. Já os olhos-da-saudade se alimentam justamente do desgaste, da impossibilidade (ou, ao menos, de uma dificuldade tão extremada que beira o impossível de acontecer) de todo retrato se conter, de não romper o tênue fio que lhe conforma, e a faz, assim, a saudade, encontrando tal ponto-de-fuga, desejando salvar-se como lembrança, confundir-se com uma “nítida mancha”.


Ainda que descolada a legenda, sabemos de quem se trata: é o retrato da própria saudade.


CHICO VIVAS



domingo, 3 de abril de 2011

DOCE EPÍSTOLA SEM BALAS PARA ACERTAR LUCAS EM CHEIO




De onde esta minha mão distante não te alcança, é daí que te asseguro que te lanço olhos, num lance como que de corda, numa forca suave que te arrasta, sem sufoco, e traz-te (longe de mim sugerir que, traste, não prestas para nada) assim, já que ainda não te posso puxar pela mão como logo puxarás, pelo fio, um carrinho sem eletricidade, porque desse jeito se sabe o domínio que se tem sobre suas marchas e contramarchas. Já aqui, acarinho-te, embora, cheio dessa temerosa assepsia, hesite em afagar-te a carinha: disso, te ris de mim como se me dissesses que o que me parece sujeira é-te a delícia de te lambuzares, sendo que esse ajuste de pessoa é meu, já que sequer sabes dizer "eu", sequer sabes que em ti já existe um, sem teres consciência de que és, em todos os sentidos, intraduzível, e sequer falas ainda.


Sem dar de ré, quero retomar a mão: tento desenhar-te, mas se com palavras já sou desajeitado (a quantidade delas, aqui, é já a prova da minha falta de perícia - por isso, nem penso em pegar-te no colo, preferindo bancar um igual, divertindo-me contigo no solo, nós dois, num duo em que só para ti há vez e, embora sobre espaço, é tudo mesmo teu), imagina então se me aventuro com as tintas.

Tens nisso uma vantagem sobre mim (e isso para não falarmos, porque seria humilhante demais, dessa tua carinha de anjo), pois haverá sempre quem enxergue nos teus exercícios sobre as paredes limpas uma louvável pedagogia, podendo até ouvires um "quem sabe não será um artista!" - enquanto que eu...

Mas por experiência própria, aconselho-te a, logo que souberes distinguir uma parede em branco de um papel que não seja de parede, escolheres a folha, já que os mesmos entusiastas das tuas artes, ao perceberem que és somente mais uma criança, vão querer te "enquadrar", sem que isso queira dizer que pretendem colocar mais uma foto tua numa moldura, em lugar de destaque.

Dando-te trégua, anuncio-te que estou quase acabando este esboço, rascunho cuja arte-final jamais ficará pronta, porque se tenho alguma arte, esta é acreditar, por mais que me digam, num murmúrio tão baixo que só eu mesmo ouço, que me porto como alguém que não cresceu (e não cresci mesmo!), que o que se pinta, o que se escreve, o que se esculpe (antes de chegares a esculpir, é bom que sejas um iconoclasta, quebrando o que lhe vier pela frente) deve estar sempre por se fazer, deixando, generosamente, esse espaço na nossa alma (durante um bom tempo, confundirás alma com fantasmas: talvez estejas certo!) para a fantasia de que, não importa com que idade está a "nossa criança", tudo pode mudar.

Agora, bandeira branca! Vou-me, e sei, sem deixar-te saudades. Se a bandeira é branca, o escritor é Rosa (João Guimarães): "A saudade é a predominância do ausente". E como aqui, ausente, presente, quem manda já sabes quem é (porque sabes quem és), mesmo que ainda não tenhas consciência disso, eu é que fico, onde estiver, querendo, com esse meu jeito de adolescente grandalhão (há muito deixei de ser um e nunca cheguei a se o outro) que não sabe o que fazer com as mãos – e é ainda cedo demais para falarmos sobre a irresistível atração entre adolescentes e mãos sem terem o que fazer, mãos e adolescentes –, alcançar-te com palavras.

Se eu conseguir, ao menos que elas te embalem (presente sabes que já és) melhor do que faria eu: até me arrisco com um lápis, mas segurar-te, logo eu que não poderia fazer outro (igual, nem pensar!)...Pensando melhor, em pensamento, acho até de arranco um sorriso, seu banguela!

CHICO VIVAS

domingo, 20 de março de 2011

ABRA [os bra] ÇOS






Todo abraço é sempre um...envolvimento...com alguém, mesmo que se dê, eventualmente, de longe, ainda que por escrito: se sincero esse abraço-em-palavras, ele envolve a ponto do verbo (o abraçar) se fazer, numa transubstanciação mundana, carne, e assim se o poderá sentir na própria pele.


Se há palavras que nos tocam, que, ditas, com certo toque de envolvimento, até nos arrepiam, fazendo surgir da pele, de sua flor, hirsutos pelos então adormecidos, como sentinelas que dormiam no ponto, há também abraços, e aqui já não falo daqueles em palavras, que não causam arrepios, e justamente por serem, ao contrário do que costuma acontecer com o tempo, frios: como um envolvimento sem laço; um envolvimento em que até há “nós” (porque se não houvesse não seria abraço), porém com uma ausência, apesar dos corpos ali presentes, da alma.


Os mais pragmáticos dizem, sem perceberem muito bem o que dizem, sem se darem conta de que se o dizem, dizem-no em palavras, preferir a ação às palavras – e toda ação é verbo, ainda que nem todas se façam carne.


E o que dizer dos que – e para este não conheço palavra específica com a qual denominá-los –, tendo carne a sua disposição, preferem, como se andassem na contramão da dieta mais comum, o vegetal: o papel? E não falo, especificamente, do papel vegetal, que é papel como outro qualquer, mas não tão comum, pois recebe, como um abraço em si, uma palavra que o mantém atado a sua natureza vegetal, que é, aliás, a de todo papel, acrescentando-lhe uma função especial, mesmo que, entre os que o utilizam cotidianamente, este não passe de mais um, um papel simplesmente comum.


Para quem, como eu (que nome dar a um sujeitinho como eu?), usa (d)as palavras para abraçar, sem com isso me tornar especial, a função de um laço (entre nós) não é aumentar aquilo que foi devidamente envolvido, e talvez até por um papel especial, mas o de desatar o nó das distâncias, por vezes mais inextricável do que os nós dados sem a perícia necessária: e tal perícia nos é dada, se formos nós a dar esses nós, tanto pela prática em dar nós que não se desfaçam facilmente, quando isso é o que se espera do laço, quanto por deixar, como precaução, pontas soltas pelas quais as mãos possam puxar palavras e desatar o nó de um presente que nos separa, apesar, em alguns casos, nos unir um passado já envolvido – e cheio de abraços a seu tempo, carnais ou em palavras – naquela opacidade que o tempo sopra, como ar sobre uma vidraça: só que a nossa respiração à janela, algo poética, passa, e tão rapidamente quanto uma fugidia inspiração não aproveitada na hora, enquanto esse vapor que o tempo sopra (e além de vapor, ele sopra também barquinhos de papel para bem longe da nossa história) é mais persistente.


Tudo isso, porém, tem uma vantagem: sendo mais resistente, o nome que, com a ponta do dedo, escreve-se sobre o vidro embaçado pelo ar do tempo passando por ali, como se ele, o vidro e não o tempo, fosse um tipo especial de papel, por mais rotineira que seja essa janela, dura mais.


E a prova de que dura mais o nome assim registrado do que os corações sobre vidraças recém-sopradas é que esses corações, por mais bem desenhados, com uma precisa linha a conter seu íntimo, desfazem-se, até por um “sopro”. Nomes, mesmo quando a memória insiste em brincar de borracha com eles, costumam manter um certo perfume no ar, como uma ponta solta à qual nos apegamos, tentando puxá-la, na tentativa de desenrolar a memória – que pode nos vir na forma (informa já) de um inesquecível...abraço
.


CHICO VIVAS

domingo, 30 de janeiro de 2011

DE VOLTA AO VELHO BACKUP DE NOVO


A persistência da memória (Salvador Dali. 1931)

Recordo-me de detalhes desinteressantes; desnecessários mesmo para a “economia da memória”: supondo-a um recurso esgotável, torna-se necessário valer-se dela com razão, quase que cientificamente, para que não se a acesse sem preciso objetivo, empregando-a num mero jogo de lembrar-e-esquecer, só pelo gosto de exibi-la, numa espécie de brincadeira de salão que atravessa o tempo e ainda hoje chama a atenção, mesmo que tal salão, como uma referência arquitetônica hiperdimensionada, já não exista.

Alguém, lembrando-se de certas leituras, mesmo que não a localizem (na memória) com a exatidão indispensável para que se anexe a essa lembrança seus dados bibliográficos, talvez diga que, se (eu) me lembro de tais detalhes, ainda que a eles me refira (conscientemente) como sem-interesse, como não-necessários, a própria recordação revelaria o contrário, como se, a seus olhos-lidos, o então velado pela inconsciência nu se mostrasse, apesar de, aos meus olhos, por mais que os vista de nudez, continuarem detalhes, e que só á luz vieram por causa da minha falta de controle, do modo descomedido com que lido com a(s) minha(s) memória(s).

Evito replicar, até porque, nessa série de lembranças “sem razão”, rebateria seus argumentos com outras leituras, a estas, ainda por cima, juntando outras tantas, numa cadeia referencial que, aí sim, revelaria, em toda sua pobre grandiosidade, a amplitude de uma memória que, guardando (de) tudo, curiosamente, esquece-se do valor terapêutico do esquecimento providencial e do significado oculto dos lapsos de memória – espaço aberto para leituras diversas.

Meios mais modernos parecem vir em nosso socorro, dispondo-se, por uma vontade que lhes foi imposta em microcircuitos, a conter memórias várias, esvaziando a nossa para, supostamente, o que realmente importa: mas, até para isso é preciso que, periodicamente, não nos esqueçamos (o que significa ter “sempre” na memória) de fazer essa transferência (de dados). Sem confiança plena em lembrança(s) assim, pode-se então se recorrer a um “lembrete”: artifício para (nos) lembrar (de) lembrar(-nos) – mas, de quê mesmo? Ah! De transferir memórias para que, num eventual colapso, tomados de esquecimento(s), uma cópia esteja a salvo.

Mas, ocorrendo tal catástrofe mnemônica, haveremos de nos lembrar de que, prudentemente, antevendo a possibilidade do colapso, fizéramos uma cópia? E mais: lembrada ela, necessário é que se saiba (por outra lembrança) o que para nós significa.

Se nada mudar, daqui a tempo(s), estarei, novamente, me recordando disto tudo: prova insofismável de que me lembro até do desnecessário, não me esquecendo nem sequer do que, ao longo dos anos, perdeu o interesse.






domingo, 2 de janeiro de 2011

OVO-DIA DE UM OVO-TEMPO



Quase imperceptível na alegria de um (novo) começo, ou apenas na autossugestão disso, querendo-se, a todo custo, acreditar numa “novidade” já há muito repetida, está certo alívio com o fim que se aproxima. Sim, porque, tendo já recebido este mundo (de meu Deus) criado, com a assinatura do Artista não apenas num discreto canto, mas em todo lugar, como se Seu (santo) nome fosse, ele próprio, a arte em si, tudo o mais detalhes meramente decorativos, não mais experimentamos começos originais, um que realmente parta do zero, sem que, então, se saiba que caminhos aquilo, ainda em construção, irá tomar, forçados como somos, embora com (aparente) liberdade para fazermos o contrário, mesmo que assim sem muita convicção e só para contrariar, a nos contentar com essas voltas que o mundo dá (quantas já, meu Deus?!) e, a cada uma delas, deixando-nos iludir pela promessa – que não se conhece quem a fez – de que, a partir de agora, daqui para frente, como versos de uma canção, tudo será diferente, juntamos os fragmentos de otimismo, frações de expectativas desfeitas, construindo, ainda que com evidente carência de maiores detalhes, uma esperança, empurrando, ao mesmo tempo, para o fundo do passado, apesar de este estar tão presente, as fadigas do fim ainda tão próximo.


Os que batem no peito, alardeando seu senso de realidade, seu apego ao pragmatismo (este, não raro, atado, numa das pontas, a um pessimismo com ilustrações pseudo-acadêmicas), não se dando conta do quanto esse gesto, o de bater no (próprio) peito, somente retórico, sem função precisa, já contradiz sua propalada ausência de fantasias sobre a vida, na crença, dado o gesto, no valor do coração para além de um pouco plástico músculo pulsante, e tão assim que mais artístico chegam a ser as curvas errantes traçadas ao acaso de uma semelhança anatômica improvável, pois esses mesmos que dizem que tal começo é puro disfarce para as reiteradas continuidades, começo (se podemos lhes falar assim) após começo, “continuam” repetindo o mesmo gesto: e há quanto tempo esse seu peito vem sendo “batido”!...


De fato, passado o efeito estupefaciente de toda expectativa concentrada (como uma esperança que exagerou no seu tom esverdeado), vai-se caindo na real. E há o lado bom dessa mesmice – de cara, renegada -, dessa rotina recorrente: que seria de nós, inclusive dos “batedores de peito” (mesmo que não sejam uns ladrões de corações), realistas sem outra alternativa, se tivessem(os) de, de tempos em tempos, começar tudo de novo, do zero, como um Criador que, dando-se por satisfeito, logo depois, sem que se tenha oportunidade de se experimentar a obra (nem mesmo como espectadores, apenas contemplativos), ei-lo já pondo novamente mãos à obra, incessantemente?


O que (realmente) nos faz acreditar num (re)começo de verdade são as experiências de fins diversos, infindavelmente, ainda que nada, sob este sol, como se sabe, seja para sempre.



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