terça-feira, 29 de junho de 2010

FERMEZ LA BOUCHE, CITOYEN!


Não tenho, decididamente, nada de herói(co). Num mundo que vive, sempre ela à espreita, com a ameaça de autoritarismo(s), quando não já nesse estado, embora sob disfarces democráticos ou legalistas, não é nada prudente me confiar qualquer segredo, uma informação preciosa: aos primeiros avanços – tal qual um adulto mascarado indo em direção a uma criança, ao menos uma que ainda não esteja anestesiada para os sustos pelos medos consumidos em série(s) -, abro logo o jogo e conto tudo. Só de imaginar pontas de cigarro, devidamente acesas, palitos afiados querendo contato carnal com a sensibilidade do que se guarda sob as unhas, ou uma eletricidade (que não seja o lugar-comum com o qual se expressam desejos insatisfeitos) percorrendo minha intimidade fisiológico-sexual, passo, quinta-coluna, para o lado de lá.


O mundo já conheceu tempos heroicos – e quase todos eles acompanhados do terror: no caso da Revolução Francesa, o próprio Terror, institucionalizado. E a arte, que deve passar à margem do jornalismo, do meramente factual (tanto quanto não se espera deste subjetivismos estéticos), sempre presente, registra, ao seu modo, os avanços e recuos da (nossa) humanidade, não raro, fazendo-se coadjuvante de um espetáculo no qual cede, sem cerimônia, sua primazia à ideologia.


Não é História: é arte. É História da arte: num dos seus mais famosos trabalhos, Jacques-Louis David, queridinho da revolução, retrata, literalmente (o que, em geral, salvo nos grandes talentos, empobrece a obra), a morte do cidadão Marat, apunhalado, e não pelas costas, pela fanática revolucionária Charlotte Corday que, se valendo da sedução ingênua de provinciana patriótica, entra no banheiro (salle des bains) de Marat e o golpeia. Antes, faz-se anunciar por um bilhete: e sua leitura, ainda na banheira, é o motivo da própria pintura de David. Diz ele (o bilhete):


“13 de julho de 1793

Marianne Chalotte Corday ao cidadão Marat:

Basta que eu esteja infeliz para ter direito a vossa benevolência”.


Tudo isto aqui está longe de ser arte. E, provavelmente, não te flagro na banheira. Violento que não sou, não trago comigo, camuflada em palavras, um punhal afiado. Mas, mesmo sem estar especialmente infeliz, conto com tua benevolência.


Acaba se surgir – para espanto dos que acreditavam mortos os movimentos (co)ordenados de massa, já ela integrada, pelos números, à nova classe média, que sequer se importa, suscetível que não é a isso, em ser designada por letras que não estão no começo do alfabeto – um novo cidadão: o cidadão-hashtag.


Agora, basta passar adiante, numa rede social, qualquer besteira com palavra de ordem contra o que se insiste ainda (coisa mais antiga!) em se chamar de “sistema” (utilizando-se de um, ainda que o “marginal” Linux), sem se perceber usuário, muitas vezes já levado ao vício do consumo continuado, dele próprio, ou fazendo de conta que, novo revolucionário romântico, como tantos outros no passado, se vale do sistema para destruir ele próprio, sendo mais honesto se agisse como um Tancredi pragmático (sem, certamente, o chame ainda juvenil de um Allain Dellon no filme de Visconti) explicando ao seu tio, o príncipe-Leopardo, porque, embora nobre, se bandeara para o lado do exército republicano de Garibaldi, que queria, claro, aparentemente, acabar com as regalias da nobreza, ainda que numa Itália dividida e empobrecida: Plus ça change, plus c’est la même chose”.

A essa altura, sem ambicionar os trend topics, já ouço um “cala a boca”. E se eu fosse mais cotidiano do que já sou, talvez também alvo de uma campanha (bem-sucedida, certamente) de “um dia sem...”.


Ficar um dia, dois dias, três, todos os dias sem televisão (uma em particular, ou todas) não deveria ser uma obrigação (cidadã?) autoimposta. Ninguém, salvo se isso se faz rigorosamente necessário, procura um hospital, não lhe passando pela cabeça entrar num só porque não tem o que fazer. Por que, então, ficar sem (ver) televisão, seja qual for ela, não pode ser um ato natural, resultado de aspirações que não encontram ali sua satisfação, a não ser que se guarde, com todo direito, em sua privacidade, gostos que, publicamente, não (se) pode exibir, porque isso seria estar se integrando demais ao...sistema.


Fazer o quê, sem TV?


Ler, ora!


Já fui um leitor compulsivo. Hoje, digo(-me), talvez como um autoengano prestigiado, que me tornei mais seletivo, embora tal seleção possa estar relacionada ao tempo e a um certo enfado com tudo, inclusive com os livros, que vem também com o próprio tempo.


“Ao cabo de examinar bem, depois de tanto estudo

de filosofia, e leis, e medicina, e tudo

até teologia...encontro-me como antes;

em nada me risquei do rol dos ignorantes.

(...)Mas, como te suplantar fatal credulidade?

Que bens reais lucrei? Gozo eu felicidade?

Ah! nem a de iludir-me e crer-me sábio.

Sei que finjo espalhar luz, e nunca a espalharei

que dos maus faça bons, ou torne os bons melhores;

antes faço dos bons maus, e os maus ainda piores.

Lucro, sequer, eu próprio? Ambiciono opulência,

e vivo pobre, quase à beira da indigência.

Cobiço distinguir-me, enobrecer-me e vou-me

com a vil plebe, à espera em vão de um nome”.

[GOETHE, Fausto. Cena I, ato 1]


Não defendo a leitura como a salvação da pátria. Não acredito que uma nação de leitores seria uma nação com povo (mais) feliz. Até porque, para mim, os bons livros, antes de solucionarem nossos problemas (salvo os indispensáveis manuais de sobrevivência na selva da vida eletrônica, e mesmo assim só os “legíveis”), são os que nos acrescentam mais um, ainda que a experiência (social ou particularmente espiritual, não necessariamente religiosa, vinda inclusive das(s) leitura(s)) possa nos dar instrumentos para atuar diretamente em sua solução.


Se, de uma hora para outra, este país, sabidamente com baixo percentual de leitura, se comparado a sua população total, se tornasse um país de leitores, a curto prazo, com chances consideráveis de isso se estender a longo, as mesmas listas de baboseiras mais vendidas continuariam quase imutáveis, só que com vendas exponencialmente multiplicadas.


“Eu, na arte de enganar, não sou dos piores;

hoje, porém, confesso, estou assustado.

Não anda o povo afeito a mãos de mestre,

mas lê, lê muito; um ler que mete medo”.

[GOETHE, Fausto. Diálogo Preliminar]


Quem sabe ir ao teatro para ver, com as exceções de praxe, “comédias” (só rindo!) com flagrante inspiração sexista, interpretadas(?) por uma plêiade de diplomados em caras e bocas, ainda com cara de pau suficiente para chamar a atenção para a “crítica social” que fazem.


Fugindo das redes de TV, cai-se noutra. E nesta, dando-se crédito a estatísticas internacionais, com destaque para os navegantes nativos, é-se peixinho nas malhas (peixes nada ingênuos para se deixarem fisgar por tubarões imorais) da pornografia – honesta, quando não esconde o que é -, das redes sociais, não raro, explicitamente ou não, canais de difusão pornográfica, ou nas páginas de celebridades, igualmente pornográficas, mesmo que não negociem “por partes”, valendo, no entanto, a rubrica pelo conjunto da obra.


Que cada um faça o que quiser: não é essa a máxima da liberdade? Ainda que alguns, temerosos, acrescentem um “desde que não invada o espaço alheio”.


Então, que, querendo-se isso, se dê o (próprio: o alheio não vale) sangue pela pátria, embora eu considere atitude mais cidadã doá-lo um banco especializado!


Que não se derrame, se assim se quiser, uma só gota pela pátria – como se os impostos que nos exaurem não fossem, qual sangria desatada, hemorragia incontrolável!


Que se desligue a TV por um dia, no geral ou particularmente uma: e ninguém tem nada a ver – liberdade, liberdade! – se, durante esse mesmo dia, se a ligar, diversas vezes, só para “ver”, desligada então, como certa TV está, se estiver (o que só se saberá se se a ligar), repercutindo um dia sem ela própria!


Que não se tenha pudor de se assistir à TV o dia todo, se se puder, se se aguentar, mesmo que, com o direito de ser (será?) esnobe, diga-se que se prefere os canais por assinatura (a caminho de se tornarem, entre todos, os mais “populares”), tanto quanto não se tem pudor em se desejar (e satisfazer tal desejo) uma TV com tela a perder de vista e paga em prestações de infinitas polegadas!


Que, livres cidadãos, sem perderem tempo em me por no topo da lista, disparem contra mim um sonoro (em caixa-alta) CALA A BOCA! Eu, de minha parte, valendo-me dessa mesma liberdade de expressão, pressuposto de uma democracia, mesmo correndo o risco de assim exibir um viés autoritário (vítima ou algoz?), além de dar, eventualmente, provas incontestes de que estou sendo (bem?) pago pelo sistema, com a mesma ênfase, ainda que hashtag solitária, devolvo-lhes, cidadãos: CALA A BOCA, Ô!...


Não é assim, afinal, que hoje se expressam os #NOVOS_CIDADÃOS?!



CHICO VIVAS

domingo, 13 de junho de 2010

NÃO SEI DE DEVO DIZER...



Um nome a mais, um nome a menos... É quase como se dizer: uma palavra a mais, uma palavra a menos...como quem diz que isso pouca diferença faz, se é que faz, pois fica clara, pelas reticências, a dúvida, talvez, aí, a única certeza. E quem já calou, quando deveria ter dito uma palavra, ao menos uma, e nada mais, mesmo que então, no momento de dizê-la, não soubesse que deveria fazê-lo (porque essas coisas, infelizmente, só aprendemos depois), sabe que ela faz, sim, diferença, podendo mesmo fazer toda: um SIM, carregado com o desejo de que seja sempre assim, ou um NÃO, com a esperança de que seja momentâneo. Do mesmo modo, sem trocar as bolas, apenas invertendo o sentido, quem, em lugar de calar, ainda que, então, tenha soltado a língua para dizer um sim somente, ou nada mais que um simples não, quando melhor seria ter ficado de boca fechada, aprendeu, com as consequências inevitáveis, a diferença que há em uma palavra a mais, uma palavra a menos...


Nomes são palavras. São próprios substantivos. São simplesmente palavras que damos à gente, que nos damos, embora o recebamos, sem consulta prévia, e o levemos vida afora. Pela tradição, alguns, que têm seu próprio nome (próprio), com o tempo, com desejo (de um sim longevo), com esperança (de um não que não seja necessário), acrescentam ao seu um outro, o nome de outro, agora seu, por direito ou apenas de fato – o que é um direito seu.


E isso não é apenas uma palavra a mais, assim como um nome que some não é um substantivo a menos, porque as palavras carregam história(s), havendo mesmo a história dos nomes.


Há nomes que parecem, de cara, pesar: mas Cruz, para quem o carrega, pode ser o fardo mais leve entre os seus, se ele traz lembranças suaves; Pena, que parece um nome por demais volátil, pode ser uma verdadeira cruz, se, ida, levada Pena pelo vento, não se consegue disso se livrar, tendo de carregá-lo nas costas.


A coragem de somar ao seu mais um nome é semelhante àquela de, sem certeza absoluta, dizer uma palavra, com dúvida sobre se não seria mais prudente calá-la; de igual bravura àquela que cala em si a palavra já na ponta da língua, intuindo o valor do silêncio nessa hora, ainda que sem a garantia de que se esteja fazendo o certo.


O certo é que a união dos nomes é fato oficial. Errado, na vida, é, não se sabendo se cala ou se fala, evitar, oficialmente, unir-se (a outro nome): e o nome disso, abstrato substantivo, embora real, é: covardia.


Ser covarde é um direito que assiste a todos (nós). Mas quem lança mão desse seu legítimo direito não pode, depois, reclamar do que disse, do que deixou de dizer.


Então, viva(s) – que é o nome que carrego – à coragem das uniões.



CHICO VIVAS

sábado, 15 de maio de 2010

SE FILO, POR QUE NÃO QUILO?






Filosofar é aprender a morrer, dizia certo filósofo – e com razão: aliás, se há uma coisa de que os filósofos se orgulham de ter, esta é a razão, mesmo que, caindo na armadilha da própria filosofia, não possam admitir, ao menos publicamente, que cultivam o orgulho, anda que (apenas?) o de sempre terem razão, não adiantando, aqui, como a querer revelar solenemente meu engano, eu que sequer sei filosofar e não tenho, assim, a razão a meu favor, lançar mão de uma filosofia cética, pois mesmo uma desse jeito e que, por princípio, duvida de tudo, não deve duvidar de si mesma, sob o risco de jamais sustentar quaisquer ideias.


Enquanto não se tem certeza sobre algo, ou enquanto não se adquire coragem suficiente para bater no próprio peito, ainda que fazendo isso retoricamente, e afirmar ser o dono da verdade, tudo é hipótese, espécie de purgatório das ideias, não se sabendo então se seu destino será virar cinzas ou ascender para uma verdade incontestável. Passada tal etapa, já com (a) razão, é aí que o inferno começa, sem que, tantas vezes, se tenha tido tempo para gozar o tão efêmero paraíso, na medida em que, sob as luzes, holofotes que sempre se voltam para as verdades da hora, atraem mais atenção, seja a dos simplesmente invejosos, filósofos ainda em hipótese(s), ávidos por rebaixarem aquela verdade ao limbo das farsas, seja a dos que, seguindo métodos rigorosos, contestam-na, apresentando, claro, suas próprias razões (algo obscuras, para parecerem mais “reais”): e muitos destes, que não tiveram oportunidade de expor suas verdades, acham-na agora, pela contestação de uma outra.


Tenebrosos tempos estes para (se) filosofar! Agora, quem aparece com suas verdades, afirmando ter razão, é mal-visto; é visto como um pedante, alguém a quem falta humildade, confundindo-se então a modéstia em não se vangloriar de ter (a) razão com o legítimo direito de afirmar tê-la, mesmo que isso não dure tanto, sendo necessário que se tenha humildade para aceitar essa verdade (na verdade, que a sua era uma verdade de mentira). Tornou-se simpático não se afirmar mais nada categoricamente, mesmo que se acredite ter (toda a) razão, só para não humilhar os outros, agindo como um pusilânime que está sempre disposto a mudar de ideia.


Filósofos hoje há “de carteirinha” (e sentem orgulho de ser assim: e devem ter lá suas razões para isso). Filósofos hoje não querem aprender a morrer – por mais que essa seja uma inarredável verdade, embora, para os que creem na eternidade, uma mera hipóteses ainda –, antes, querem aprender a viver, ainda que para isso não sejam assertivos, mas reticentes...abrindo espaço para uma subsequente reparação. Filósofos hoje são uma categoria em extinção, sem que haja campanha visando a sua preservação. Filósofos hoje são uma anacronicidade, como já eram ontem, como sempre hão de ser: e isso digo eu, com a categoria de mero especulador, com o peito já muito amassado de tanto aí bater, a cada verdade que suponho ter, a cada razão de que suponho ser indiscutível dono.


Aprender tudo é morrer...como um curioso de verdade(s).



quarta-feira, 7 de abril de 2010

ESCÂNDALO SEM ORIGINALIDADE





“Por várias vezes falou em se lançar ao jornalismo, e sempre seus amigos lhe diziam: evita fazer isso. Seria a sepultura do belo. (...) Não resistirias à constante alternância de prazer e de trabalho de que é feita a vida dos jornalistas, e resistir é o fundamento da virtude. Ficarias tão encantado por exercer o poder, por ter direito de vida e morte sobre as obras do pensamento, que te tornarias jornalista em dois meses. Ser jornalista é passar a procônsul na república das Letras. Quem tudo pode dizer chega a tudo fazer. (...) Já tens em demasia as qualidades do jornalista: o brilho e a rapidez do pensamento. Não te privarias nunca de um dito do espírito, embora fizesse ele chorar a um teu amigo. (...) O jornalismo é um inferno, um abismo de iniquidades, de mentiras, de traições, que não se pode atravessar e de onde não se pode sair puro, senão protegido, como Dante, pelos louros divinos de Virgílio”.

HONORÉ DE BALZAC (Ilusões Perdidas)



Chico Vivas




Se é para vender jornal, então uma foto...sensacional(ista), uma apenas a mais na longa lista de clichês à venda nesse diário comércio entre a nossa avidez, insaciáveis pelo que quer que seja (bem vendido, bem fotografado) e a necessidade dos fabricantes de que-quer-que-seja(s) em rolar os estoques.

Assim, que tal a foto de um homem, dos mais comuns, aparentemente; de altura, por enquanto, imprecisa – e talvez esse seja mesmo um detalhe sem maior importância, a não ser que pouco ou nada sobre ele se tenha a dizer, o que fará de um ou outro centímetro motivo de acaloradas discussões? E ele está, como se a nossa espera, no alto de um prédio, algo desequilibrado (não o prédio), não se sabendo ao certo se esse seu caráter trôpego diz respeito ao seu corpo eventualmente alcoolizado ou ao seu espírito pusilânime. De fato, se fato realmente há aqui, dá a impressão de que, a qualquer instante, ao menor sopro, sob a inspiração da plateia que embaixo vai aumentando, impossível já contá-los, mais ainda de se dizer de onde surgem, ele poderá cair: que tal uma foto assim?!

A foto enquadra o fato de um ponto de vista “baixo”, um tanto distanciado, mas presente o bastante para não deixar escapar à lente um lance sequer. Pode-se ter a visão da multidão, clamando o que a foto dificilmente revelará; e com essa posição também se cria a ilusão de que a altura é bem maior do que deve ser na realidade – e leitor nenhum que se preze, devorador desse jornal de cotidianos flagrantes, um jornal que não preza tanto assim seus leitores, embora lhes ofereça banquetes bizarros, vai até lá, próximo do homem, para tirar a prova, com régua na mão, de sua altura de verdade. O ângulo escolhido alcança seu objetivo de tornar tudo o que vê, tantas vezes um quase-nada, mais grandioso do que é, e é possível que ali nada haja de tão grande assim: nem o prédio em si, que pode ser menor do que aparenta, nem o homem em si, que pode ser somente de altura medianamente baixa, e até mesmo a tal multidão, então supervalorizada em seu número de eventuais passantes e de titulares desses flagras rotineiros.


Quem vier a ler o jornal, mais interessado na imagem e buscando as palavras só para confirmarem que seus olhos não se enganaram, de cara, desvenda esse mistério-de-rua, enigma ao ar livro: é tão-só mais um homem qualquer, no uso legítimo de seu direito de viver com dignidade ou, não a tendo mais, de morrer à hora em que desejar; ou ainda, não pretendendo deixar tão cedo (não se conhece ao certo sua idade) esta vida, deseja apenas para si mesmo a atenção dos outros, mesmo que tantos desses alheios já sejam quase profissionais em se aglomerarem, atendendo a um chamado de sua natureza, amante de qualquer fato que fuja, mesmo que só aparentemente, a sua própria rotina, embora eles mesmos experimentem, sem toda essa alegoria pública, mortes diárias, carentes, no entanto, desse espetáculo.



O homem no alto do prédio – que, aliás, é alto mesmo, e não um truque do clichê vespertino, ainda que não dos mais elevados, ao menos se tomarmos como medida referencial os mais altos prédios – é alto, ainda que, mesmo acima da média da altura dos homens comuns, não seja, entre os agigantados (uma delícia para o jornal), páreo para este grandalhões de livro de recordes; e esse homem não alimenta qualquer intenção de se atirar daquelas alturas, seja porque encara sua vida medíocre de homem assim com subida dignidade (quantos lances, essa “subida”!), seja porque, discreto na sua vida diária, tanto que não se o nota quando ele próprio se faz passar por eventual pedestre, arrancado de suas divagações habituais por um homem no alto de um prédio, hesitante, queira viver apenas alguns minutos de exibição fugaz.


Ele lá está justamente para salvar uma vida: mas que não se diga isso ainda aos observadores da cena, pois seria, sobre suas cabeças acaloradas, um balde de água das mais frias (sem o devido refresco), fazendo-os se dispersarem, inviabilizando então a provável sensação da foto e, em consequência, a venda provável de jornais, bem acima da média dos dias em que as fotos na primeira página só estampam as baixezas rotineiras, inclusive a de homens “altos” circunstancialmente rebaixados à altura dos mais comuns.


E não é a vida de um outro homem, numa solidariedade entre semelhantes, que está em perigo, pondo, na tentativa de salvá-la, em risco a própria vida do homem que vemos e do qual já sabemos ser alto para a média dos homens conhecidos por serem medianos. Esse homem que insistentemente vem se fazendo citar aqui, desconhecido seu nome ainda, está ali para salvar a vida de uma ave potencialmente suicida, que a todo instante ameaça se atirar. Como a tal ave, um pássaro canoro em crise durante seu período de muda, mesmo sendo, em tamanho, páreo para seus semelhantes, é, ainda assim, pequena em demasia para os enormes vãos dos olhos da multidão faminta que só enxerga, na cena, o homem, e nada vê da ave, porque muda, podendo ouvir do pássaro suas despedidas afinadas, como se um cisne em canto derradeiro.


Para apressar a história, porque isso é jornal e não um livro de mistério – um livro desses quer prender o leitor o máximo que pode, já o jornal precisa apenas de sua fidelidade diária – e porque, embaixo, os repórteres, uma multidão deles, entre os quais os profissionais que chegaram de pronto e os amadores que sempre estão de passagem, gritam que precisam entregar a matéria, como se pedissem urgência ao homem, e este, como se num ato de suprema coragem (que leitores elevados de jornais baixos preferem chamar de covardia), faz, lá no alto, uma manobra arriscada para salvar o pássaro, quando a ave já estava em pleno salto mortal.


Sem asas, o homem cai. Salva a ave, satisfaz muitos desejos, concentrados nos jornais, com uma sequência de fotos sensacionais. E ainda mais do que o esperado em ocasiões assim, já que a primeira página vai estampá-lo no chão, cercado pela multidão reunida artificialmente (porque muitos só esperavam o salto, sabendo que dali, agora, do chão, ele não passaria), com o pássaro, vivinho da silva, na mão, tendo, repentinamente, recuperado a voz para um réquiem.


Louve-se o jornal por, num esforço extremo de reportagem, sensacional mesmo, ter descoberto que o tal homem, anônimo até então, apesar do autor da matéria descrevê-lo como um suicida em potencial, que nem a beleza de um pássaro heroico conseguiu salvar do seu desejo de morrer por ter, cantor, perdido a voz, tinha, como todo homem, de qualquer altura, um nome: e tinha nome de ave – chamava-se Maria. Seu sobrenome, comum demais para um cantor de hoje em dia, mesmo os muito vivos, um Silva mediano, desapontou, quanto às vendas, o jornal.


Mas, sem escapar de mais um clichê, amanhã, todo leitor sabe, em suas angústias repetitivas, é um outro dia – como também sabe a multidão de homens eventuais.




CHICO VIVAS

sábado, 27 de março de 2010

CURSO INTENSIVO DE TEATRO PARA A VIDA TODA


Vi o espetáculo e o aplaudi.

Não vou a bastidores: gosto da ilusão. Tu és a exceção que faço, tão concreto que és; e mesmo assim, eu ainda tento desatá-lo, espetáculo aqui entre nós, do real e rechear a cena com ficção, mais palatável a essa minha língua demente, que mente somente para me dar asas, dar-me alguma imaginação.

Aplaudo sem trama, sem drama. No escuro, às velas, no claro, caravelas projetadas no rosto como sombras chinesas, navegando avante nos olhos puxados - este para leste, aquele, o(u)este, olhando para si, em circunvoluções de mar. Não desço aos porões; gosto da liberdade que me prende ao não me deixar “cativar”, acorrentando-me a mãos, gosto de me deixar seviciar por beijos inclementes, a golpes de chicote quente, largo sobre a carne tenra, como ave nova em voo de estreia, subindo sem cair, caindo sem pestanejar: que pestanas não têm os pássaros, que cílios não têm os lábios que cantam a canção do norte, quando então se dirigem ao sul.

Quem me vê, que espetáculo verá? Verá, talvez, no palco o bastidor revelado nas mãos brancas da virgem antiga, com agulha entre os dedos avermelhados, bordando um desenho que lhe copia as pausas do coração, a legenda de uma futura vida ou a memória de uma vida que passou sem que pintado se a tenha: bordado? que dirá!

Se for (a)o porão, que navio me conterá? Que cargas carregarei? Que tripulação conduzirei? Que ratos me roerão - ou será que os roerei? Serei rei em escasso peito? Se já escasso assim, errei de navio ou serei cativo das minhas sinceras ilusões? Que sei?!

Fecho-me, cortinas cerradas, esburacadas, deixando-me devassar pela luz dos olhares ansiosos por uma lágrima que se ajuste àquelas que não (me) choraram ou pelo sorriso escapado à boca que chora no lugar dos olhos, porque, úmida com é, não precisa fingir.

Vou-me assim desmascarando. Não por ter a pintura da cara arrancado, mas pelas penas que levo coladas à antiaderência da minha paixão descascada, descamada em todos os seus níveis mais íntimos. Por onde sigo, aplaudem-me; mas isso é só o silêncio espalmado, é só o eco de corações imobilizados, são só os fantasmas do amor em rima não sentida - quanto o desejo era senti-la: brancos versos, prosa rimada, ou ainda melhor, tudo calado, comunicando o que “cinto”, sem calça a me apertar o íntimo, um longo beijo que consinto que seja correspondido, sentindo lacrar o envelope de uma carta chegada com a saliva ainda ardente de um desejo atrasado, uma despedida que leva a...deus. E poderá até seguir aberta, pois para que serve o gosta da minha língua, se outra boca já não mais haverá?

Monologo, em diálogo comigo mesmo, com todos os que cruzam esse meu caminho em diagonal. Dou a deixa e espero...e só espero: que a deixa era mesmo só para esperar...esperar...Agradeço, braços cruzados sobre o peito, inclinado para a frente, dobrado por dentro, dispendioso por trás desse espetáculo todo de louvores em noite clara, com sol amargo, num meio-dia violeta, ou em qualquer entardecer cristalizado em calda de açúcar mascavo. Lambo-me todo para reabsorver minhas ilusões, já que postos não há onde eu possa reencher-me com f(r)icções de outras mãos sobre minha testa a arder de palavras a queimar, todas tão vãs!

E vou-me...Canção de madeira queimada, agora lápis de cor sobre o alvo do tempo, escrevendo o que se desfaz logo que anoitece e tudo, queimado dia, é só canção.

CHICO VIVAS

sábado, 13 de março de 2010

AVISO: ISTO É UM LIXO









Fiquemos combinados assim: o mundo é mesmo um lixo.

O lixo produz lixo, como se, reciclando-se a si mesmo, o lixo deixasse, provisoriamente, de sê-lo, ascendendo a outra coisa e, nessa sua subida, não abrindo mão do que tem como seu legítimo direito de também lixo produzir, pois, afinal, é filho de Deus (sem que eu queira, eu minha covardia ontológica, dizer que Deus é mais um lixo).

O luxo, tido por muitos, provavelmente os que fantasiam um luxo de vida, sem, no entanto, terem sequer passado perto dele, como uma inesgotável (e principal responsável) fonte de lixo, sem nem permitir que esse lixo de seu luxo se torne fonte de uma energia qualquer, porque faz parte do luxo exercer seu legítimo direito sobre aquilo pelo qual pagou, e caro, mesmo quando, perdida sua original utilidade – e a utilidade do luxo pode ser não ter mesmo qualquer função útil, sendo isso essencial para uma verdadeira vida luxuosa –, o luxo é, inequivocamente, agora, um lixo...a mais.

Foi-se o tempo – o tempo ora é um luxo a que poucos têm acesso e que produz seu próprio lixo em forma de um passado não-reciclável, ora é um evidente lixo, especialmente para aqueles que, num luxo só, vestem-se, dia e noite, com os reluzentes atavios de uma eternidade prometida – em que se podia esconder o lixo debaixo do tapete, seja pela pressa em se dar ao lixo de então seu destino mais habitual, seja porque, rigorosamente, nem lixo havia, apenas o resultado residual do hábito (para passar o tempo) de se varrer a casa, o que, quando feito por obrigação, ainda que num espaço tão exíguo que o menor dos tapetes poderia cobrir toda a área disponível, parece uma eternidade, um varrer que não quer acabar mais.

Lugar de lixo é no lixo: é o que, até há bem pouco, se dizia, com ar professoral, com intenção pedagógica, quase um slogan de vida civilizada. Agora, o luxo é não tratar o lixo como lixo, mas tratá-lo bem, tratando-o de tal maneira que ele ressurja, às vezes, literalmente, das cinzas, chegando ao requinte de se tornar, reciclado já, objeto de luxo, mesmo que o luxo da vez se restrinja a se passar por alguém preocupado com seu mundo, para além do seu próprio mundinho, como alguém que, mesmo aspirando (será que isso cheira bem?) à eternidade, tomando esse tempo no mundo como um lixo passageiro, preocupa-se com o mundo que vai deixar para trás, reconhecendo que alguns, neste mundo, podem preferir viver seu próprio tempo ansiosamente, desesperadamente, talvez por não acreditarem em nenhum outro, a ponto de vivenciarem suas horas com uma avidez que sequer lhes permite, gozadas já as horas (e nem todas elas são engraçadas), que se ponha o lixo daí resultante em continentes adequados, prontos para nova reciclagem, num refazer de mundo ad aeternum.

E dizer, tão lugar-comum como é, que não é de hoje que isso é assim, que o mundo é um lixo, é um dos poucos luxos a que tenho direito. Acho mesmo que o único. Foi por isso que, luxuoso, pus aqui todo este lixo.




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