quarta-feira, 18 de agosto de 2010

NÃO “RETIRE” O QUE EU DIGO









Falso cognato, dada essa nossa pressa habitual que faz com que, mesmo conhecendo as armadilhas ocultas de um ato assim, levados a isso, no entanto, pela dita falta de tempo, nos deixamos seduzir pela aparência das coisas (ou, no caso, pela aparência da própria palavra), primeira impressão sempre invocada, “(to) retire” não é uma retirada completa, mas um aposentar-se que trai sim, voluntária ou compulsoriamente, o retirar-se, ainda que hoje recaiam sobre isso tantos olhos condenadores, como se não admitissem a necessidade, física ou emocional (quando não as duas), de se se apartar da rotina de toda uma vida, embora já houvesse vida (por imperativo biológico) antes mesmo do trabalho, com seus contados tempos de serviço, e ainda haja depois.
E para aqueles, com olhos arregalados para mim, que logo hão de intervir para dizerem que essa tal quebra de rotina, por continuada a partir de então, não demora para se constituir numa outra rotina, com a desvantagem de que agora se tem tempo de sobra para se pensar na própria rotina, o que, em meio a um turbilhão de atividades rotineiras, não costumava sobrar antes, a esses, eu (lhes) digo, do alto da minha baixa estatura: o que, afinal, é a rotina? Basta que repitamos uma mesma tarefa em busca de a dominarmos, tomados pela angústia de ainda não termos em nossas mãos todos os seus mistérios, para que já estejamos a um passo de nos tornarmos a rotina em pessoa.
Talvez haja um peso simbólico (mas “sentido” na pela, em geral, a essa altura, sem a mesma elasticidade juvenil) sobre a “retirada”, sobre uma aposentadoria que deveria ser (remuneração à parte, já que essa é uma seara demasiado espinhosa) o coroamento de uma vida ativa, reconhecendo-se o valor de se estar, longe do cotidiano de labores vários, consigo próprio, mesmo que essa reflexão não demora para se transmutar numa rotina nova: mas aí já se está acostumado, achando-se mesmo mais seguro viver sem as surpresas para as quais não se tem resposta, ou, tendo-a, não se pode dá-la, entre as quais, a disposição para um eventual chamado aventureiro.
Não são todos que podem se “retirar”, oficialmente, no tempo certo, sem viver essa “oficiosidade” injusta e que não atende ao apelo do corpo por uma parada terapêutica, sob o risco iminente de o corpo, ele mesmo, parar, movido como é pela fome, e esta pela remuneração, não raro, de fome, trocadilho ainda mais injusto quando se aceita essa remuneração por causa dela, da fome que não dá trégua, sendo a “rotina”, satisfeita ou não, mais antiga na nossa vida: quem pode, sem temor de agora passar a cultivar uma egolatria algo anacrônica, que se dedique, com todo seu tempo, a si mesmo, ainda que isso signifique uma dedicação altruísta por quem, com fomes diversas, mal pode pensar...e menos ainda em pensar em parar de trabalhar.
“Retire”, no inglês, nossa língua-madrasta (por vezes, mais carinhosa que nossa própria “mãe”), pode ser entendido como um “retroceder”, esse temido, quando jovens, passo-atrás, época em que, curiosamente, temos tanto tempo para retomarmos o caminho, se decidirmos dar uma ré. E, com o que o tempo faz a olhos vistos com nossa visão, dar um passo atrás pode implicar em se ver a vida de outra maneira, eventualmente com mais “clareza”, ainda que isso continue nos angustiando.

CHICO VIVAS

quinta-feira, 22 de julho de 2010

DEUS END








Quando um cinema fecha, Deus dá gargalhadas – e não qualquer (porque são muitos, especialmente os autoproclamados assim) deus do cinema, mas Aquele mesmo que, de tão-poderoso, perfeito em Sua própria definição, soa a personagem de ficção, a coisa de cinema mesmo. E se em seu lugar (e há certos Cinemas que mereciam que a “Ele” se associassem sempre letras maiúsculas) nasce uma nova velha igreja, justamente com o argumento, um dos mais velhos deste mundo (de meu Deus), de se louvá-Lo, aí é que as risadas dobram de tamanho, quase parecendo, aos mais descuidados, uma trovoada sem par.



E é assim porque Deus, tão ingênuo que criou o mundo, sendo a nossa criação o máximo de Sua ingenuidade, na crença de que nos contentaríamos, para sempre, em sermos somente Sua semelhança, imagina que tudo aquilo não passa de uma piada, de uma já repetida, espécie de clichê indispensável em filmes do gênero, como a inevitável casca de banana no meio do caminho que, desprezada um dia por ser óbvia demais, ressurgiu como um clássico eterno, quem sabe se coisa do diabo em dia inspirado, porque não passa pela cabeça divina que alguém queira trocar um cinema, que também tem lá seus “fiéis”, por uma assembleia de Deus.



Logo, no entanto, Ele acaba caindo (gerúndio impróprio para um deus) na real, percebendo o quando a comédia, levada ao seu extremo, perigosamente se aproxima do trágico. Chorar não fica bem à face de Deus: se Ele não nos der o (bom) exemplo, como suportaremos levar adiante o filme da nossa vida, com o peso de sermos, ao mesmo tempo, autores, encenadores, diretores, produtores, atores, contra-regras, bilheteiros e pipoqueiros?



Mas, transformar, num ato de vingança, que não deve agradar a Deus, os cinemas em novas igrejas não parece ser solução: logo teríamos, em vez de espectadores, com direito a ir e vir, crédulos acorrentados a ideia de que deles depende a sobrevivência do mundo (do cinema): e, pensando bem, coisa que fazemos melhor do que Deus, esse Cinema é coisa do passado, sendo que, muitas vezes, aquilo que o do presente nos oferece de melhor é o querer sair de casa, desse nosso mundinho que recriamos a todo instante, enchendo-o (como se isso fosse sinônimo de inspirada criação) de possibilidades que não nos tiram de casa, a ponto de alguns só conhecerem certas paisagens, com mar ao fundo, nos limites do home theater: e gente, quando lhes aparece pela frente, tomam-na como coadjuvantes que, sabe-se lá por que encanto demoníaco, escapou da ficção.



terça-feira, 29 de junho de 2010

FERMEZ LA BOUCHE, CITOYEN!


Não tenho, decididamente, nada de herói(co). Num mundo que vive, sempre ela à espreita, com a ameaça de autoritarismo(s), quando não já nesse estado, embora sob disfarces democráticos ou legalistas, não é nada prudente me confiar qualquer segredo, uma informação preciosa: aos primeiros avanços – tal qual um adulto mascarado indo em direção a uma criança, ao menos uma que ainda não esteja anestesiada para os sustos pelos medos consumidos em série(s) -, abro logo o jogo e conto tudo. Só de imaginar pontas de cigarro, devidamente acesas, palitos afiados querendo contato carnal com a sensibilidade do que se guarda sob as unhas, ou uma eletricidade (que não seja o lugar-comum com o qual se expressam desejos insatisfeitos) percorrendo minha intimidade fisiológico-sexual, passo, quinta-coluna, para o lado de lá.


O mundo já conheceu tempos heroicos – e quase todos eles acompanhados do terror: no caso da Revolução Francesa, o próprio Terror, institucionalizado. E a arte, que deve passar à margem do jornalismo, do meramente factual (tanto quanto não se espera deste subjetivismos estéticos), sempre presente, registra, ao seu modo, os avanços e recuos da (nossa) humanidade, não raro, fazendo-se coadjuvante de um espetáculo no qual cede, sem cerimônia, sua primazia à ideologia.


Não é História: é arte. É História da arte: num dos seus mais famosos trabalhos, Jacques-Louis David, queridinho da revolução, retrata, literalmente (o que, em geral, salvo nos grandes talentos, empobrece a obra), a morte do cidadão Marat, apunhalado, e não pelas costas, pela fanática revolucionária Charlotte Corday que, se valendo da sedução ingênua de provinciana patriótica, entra no banheiro (salle des bains) de Marat e o golpeia. Antes, faz-se anunciar por um bilhete: e sua leitura, ainda na banheira, é o motivo da própria pintura de David. Diz ele (o bilhete):


“13 de julho de 1793

Marianne Chalotte Corday ao cidadão Marat:

Basta que eu esteja infeliz para ter direito a vossa benevolência”.


Tudo isto aqui está longe de ser arte. E, provavelmente, não te flagro na banheira. Violento que não sou, não trago comigo, camuflada em palavras, um punhal afiado. Mas, mesmo sem estar especialmente infeliz, conto com tua benevolência.


Acaba se surgir – para espanto dos que acreditavam mortos os movimentos (co)ordenados de massa, já ela integrada, pelos números, à nova classe média, que sequer se importa, suscetível que não é a isso, em ser designada por letras que não estão no começo do alfabeto – um novo cidadão: o cidadão-hashtag.


Agora, basta passar adiante, numa rede social, qualquer besteira com palavra de ordem contra o que se insiste ainda (coisa mais antiga!) em se chamar de “sistema” (utilizando-se de um, ainda que o “marginal” Linux), sem se perceber usuário, muitas vezes já levado ao vício do consumo continuado, dele próprio, ou fazendo de conta que, novo revolucionário romântico, como tantos outros no passado, se vale do sistema para destruir ele próprio, sendo mais honesto se agisse como um Tancredi pragmático (sem, certamente, o chame ainda juvenil de um Allain Dellon no filme de Visconti) explicando ao seu tio, o príncipe-Leopardo, porque, embora nobre, se bandeara para o lado do exército republicano de Garibaldi, que queria, claro, aparentemente, acabar com as regalias da nobreza, ainda que numa Itália dividida e empobrecida: Plus ça change, plus c’est la même chose”.

A essa altura, sem ambicionar os trend topics, já ouço um “cala a boca”. E se eu fosse mais cotidiano do que já sou, talvez também alvo de uma campanha (bem-sucedida, certamente) de “um dia sem...”.


Ficar um dia, dois dias, três, todos os dias sem televisão (uma em particular, ou todas) não deveria ser uma obrigação (cidadã?) autoimposta. Ninguém, salvo se isso se faz rigorosamente necessário, procura um hospital, não lhe passando pela cabeça entrar num só porque não tem o que fazer. Por que, então, ficar sem (ver) televisão, seja qual for ela, não pode ser um ato natural, resultado de aspirações que não encontram ali sua satisfação, a não ser que se guarde, com todo direito, em sua privacidade, gostos que, publicamente, não (se) pode exibir, porque isso seria estar se integrando demais ao...sistema.


Fazer o quê, sem TV?


Ler, ora!


Já fui um leitor compulsivo. Hoje, digo(-me), talvez como um autoengano prestigiado, que me tornei mais seletivo, embora tal seleção possa estar relacionada ao tempo e a um certo enfado com tudo, inclusive com os livros, que vem também com o próprio tempo.


“Ao cabo de examinar bem, depois de tanto estudo

de filosofia, e leis, e medicina, e tudo

até teologia...encontro-me como antes;

em nada me risquei do rol dos ignorantes.

(...)Mas, como te suplantar fatal credulidade?

Que bens reais lucrei? Gozo eu felicidade?

Ah! nem a de iludir-me e crer-me sábio.

Sei que finjo espalhar luz, e nunca a espalharei

que dos maus faça bons, ou torne os bons melhores;

antes faço dos bons maus, e os maus ainda piores.

Lucro, sequer, eu próprio? Ambiciono opulência,

e vivo pobre, quase à beira da indigência.

Cobiço distinguir-me, enobrecer-me e vou-me

com a vil plebe, à espera em vão de um nome”.

[GOETHE, Fausto. Cena I, ato 1]


Não defendo a leitura como a salvação da pátria. Não acredito que uma nação de leitores seria uma nação com povo (mais) feliz. Até porque, para mim, os bons livros, antes de solucionarem nossos problemas (salvo os indispensáveis manuais de sobrevivência na selva da vida eletrônica, e mesmo assim só os “legíveis”), são os que nos acrescentam mais um, ainda que a experiência (social ou particularmente espiritual, não necessariamente religiosa, vinda inclusive das(s) leitura(s)) possa nos dar instrumentos para atuar diretamente em sua solução.


Se, de uma hora para outra, este país, sabidamente com baixo percentual de leitura, se comparado a sua população total, se tornasse um país de leitores, a curto prazo, com chances consideráveis de isso se estender a longo, as mesmas listas de baboseiras mais vendidas continuariam quase imutáveis, só que com vendas exponencialmente multiplicadas.


“Eu, na arte de enganar, não sou dos piores;

hoje, porém, confesso, estou assustado.

Não anda o povo afeito a mãos de mestre,

mas lê, lê muito; um ler que mete medo”.

[GOETHE, Fausto. Diálogo Preliminar]


Quem sabe ir ao teatro para ver, com as exceções de praxe, “comédias” (só rindo!) com flagrante inspiração sexista, interpretadas(?) por uma plêiade de diplomados em caras e bocas, ainda com cara de pau suficiente para chamar a atenção para a “crítica social” que fazem.


Fugindo das redes de TV, cai-se noutra. E nesta, dando-se crédito a estatísticas internacionais, com destaque para os navegantes nativos, é-se peixinho nas malhas (peixes nada ingênuos para se deixarem fisgar por tubarões imorais) da pornografia – honesta, quando não esconde o que é -, das redes sociais, não raro, explicitamente ou não, canais de difusão pornográfica, ou nas páginas de celebridades, igualmente pornográficas, mesmo que não negociem “por partes”, valendo, no entanto, a rubrica pelo conjunto da obra.


Que cada um faça o que quiser: não é essa a máxima da liberdade? Ainda que alguns, temerosos, acrescentem um “desde que não invada o espaço alheio”.


Então, que, querendo-se isso, se dê o (próprio: o alheio não vale) sangue pela pátria, embora eu considere atitude mais cidadã doá-lo um banco especializado!


Que não se derrame, se assim se quiser, uma só gota pela pátria – como se os impostos que nos exaurem não fossem, qual sangria desatada, hemorragia incontrolável!


Que se desligue a TV por um dia, no geral ou particularmente uma: e ninguém tem nada a ver – liberdade, liberdade! – se, durante esse mesmo dia, se a ligar, diversas vezes, só para “ver”, desligada então, como certa TV está, se estiver (o que só se saberá se se a ligar), repercutindo um dia sem ela própria!


Que não se tenha pudor de se assistir à TV o dia todo, se se puder, se se aguentar, mesmo que, com o direito de ser (será?) esnobe, diga-se que se prefere os canais por assinatura (a caminho de se tornarem, entre todos, os mais “populares”), tanto quanto não se tem pudor em se desejar (e satisfazer tal desejo) uma TV com tela a perder de vista e paga em prestações de infinitas polegadas!


Que, livres cidadãos, sem perderem tempo em me por no topo da lista, disparem contra mim um sonoro (em caixa-alta) CALA A BOCA! Eu, de minha parte, valendo-me dessa mesma liberdade de expressão, pressuposto de uma democracia, mesmo correndo o risco de assim exibir um viés autoritário (vítima ou algoz?), além de dar, eventualmente, provas incontestes de que estou sendo (bem?) pago pelo sistema, com a mesma ênfase, ainda que hashtag solitária, devolvo-lhes, cidadãos: CALA A BOCA, Ô!...


Não é assim, afinal, que hoje se expressam os #NOVOS_CIDADÃOS?!



CHICO VIVAS

domingo, 13 de junho de 2010

NÃO SEI DE DEVO DIZER...



Um nome a mais, um nome a menos... É quase como se dizer: uma palavra a mais, uma palavra a menos...como quem diz que isso pouca diferença faz, se é que faz, pois fica clara, pelas reticências, a dúvida, talvez, aí, a única certeza. E quem já calou, quando deveria ter dito uma palavra, ao menos uma, e nada mais, mesmo que então, no momento de dizê-la, não soubesse que deveria fazê-lo (porque essas coisas, infelizmente, só aprendemos depois), sabe que ela faz, sim, diferença, podendo mesmo fazer toda: um SIM, carregado com o desejo de que seja sempre assim, ou um NÃO, com a esperança de que seja momentâneo. Do mesmo modo, sem trocar as bolas, apenas invertendo o sentido, quem, em lugar de calar, ainda que, então, tenha soltado a língua para dizer um sim somente, ou nada mais que um simples não, quando melhor seria ter ficado de boca fechada, aprendeu, com as consequências inevitáveis, a diferença que há em uma palavra a mais, uma palavra a menos...


Nomes são palavras. São próprios substantivos. São simplesmente palavras que damos à gente, que nos damos, embora o recebamos, sem consulta prévia, e o levemos vida afora. Pela tradição, alguns, que têm seu próprio nome (próprio), com o tempo, com desejo (de um sim longevo), com esperança (de um não que não seja necessário), acrescentam ao seu um outro, o nome de outro, agora seu, por direito ou apenas de fato – o que é um direito seu.


E isso não é apenas uma palavra a mais, assim como um nome que some não é um substantivo a menos, porque as palavras carregam história(s), havendo mesmo a história dos nomes.


Há nomes que parecem, de cara, pesar: mas Cruz, para quem o carrega, pode ser o fardo mais leve entre os seus, se ele traz lembranças suaves; Pena, que parece um nome por demais volátil, pode ser uma verdadeira cruz, se, ida, levada Pena pelo vento, não se consegue disso se livrar, tendo de carregá-lo nas costas.


A coragem de somar ao seu mais um nome é semelhante àquela de, sem certeza absoluta, dizer uma palavra, com dúvida sobre se não seria mais prudente calá-la; de igual bravura àquela que cala em si a palavra já na ponta da língua, intuindo o valor do silêncio nessa hora, ainda que sem a garantia de que se esteja fazendo o certo.


O certo é que a união dos nomes é fato oficial. Errado, na vida, é, não se sabendo se cala ou se fala, evitar, oficialmente, unir-se (a outro nome): e o nome disso, abstrato substantivo, embora real, é: covardia.


Ser covarde é um direito que assiste a todos (nós). Mas quem lança mão desse seu legítimo direito não pode, depois, reclamar do que disse, do que deixou de dizer.


Então, viva(s) – que é o nome que carrego – à coragem das uniões.



CHICO VIVAS

sábado, 15 de maio de 2010

SE FILO, POR QUE NÃO QUILO?






Filosofar é aprender a morrer, dizia certo filósofo – e com razão: aliás, se há uma coisa de que os filósofos se orgulham de ter, esta é a razão, mesmo que, caindo na armadilha da própria filosofia, não possam admitir, ao menos publicamente, que cultivam o orgulho, anda que (apenas?) o de sempre terem razão, não adiantando, aqui, como a querer revelar solenemente meu engano, eu que sequer sei filosofar e não tenho, assim, a razão a meu favor, lançar mão de uma filosofia cética, pois mesmo uma desse jeito e que, por princípio, duvida de tudo, não deve duvidar de si mesma, sob o risco de jamais sustentar quaisquer ideias.


Enquanto não se tem certeza sobre algo, ou enquanto não se adquire coragem suficiente para bater no próprio peito, ainda que fazendo isso retoricamente, e afirmar ser o dono da verdade, tudo é hipótese, espécie de purgatório das ideias, não se sabendo então se seu destino será virar cinzas ou ascender para uma verdade incontestável. Passada tal etapa, já com (a) razão, é aí que o inferno começa, sem que, tantas vezes, se tenha tido tempo para gozar o tão efêmero paraíso, na medida em que, sob as luzes, holofotes que sempre se voltam para as verdades da hora, atraem mais atenção, seja a dos simplesmente invejosos, filósofos ainda em hipótese(s), ávidos por rebaixarem aquela verdade ao limbo das farsas, seja a dos que, seguindo métodos rigorosos, contestam-na, apresentando, claro, suas próprias razões (algo obscuras, para parecerem mais “reais”): e muitos destes, que não tiveram oportunidade de expor suas verdades, acham-na agora, pela contestação de uma outra.


Tenebrosos tempos estes para (se) filosofar! Agora, quem aparece com suas verdades, afirmando ter razão, é mal-visto; é visto como um pedante, alguém a quem falta humildade, confundindo-se então a modéstia em não se vangloriar de ter (a) razão com o legítimo direito de afirmar tê-la, mesmo que isso não dure tanto, sendo necessário que se tenha humildade para aceitar essa verdade (na verdade, que a sua era uma verdade de mentira). Tornou-se simpático não se afirmar mais nada categoricamente, mesmo que se acredite ter (toda a) razão, só para não humilhar os outros, agindo como um pusilânime que está sempre disposto a mudar de ideia.


Filósofos hoje há “de carteirinha” (e sentem orgulho de ser assim: e devem ter lá suas razões para isso). Filósofos hoje não querem aprender a morrer – por mais que essa seja uma inarredável verdade, embora, para os que creem na eternidade, uma mera hipóteses ainda –, antes, querem aprender a viver, ainda que para isso não sejam assertivos, mas reticentes...abrindo espaço para uma subsequente reparação. Filósofos hoje são uma categoria em extinção, sem que haja campanha visando a sua preservação. Filósofos hoje são uma anacronicidade, como já eram ontem, como sempre hão de ser: e isso digo eu, com a categoria de mero especulador, com o peito já muito amassado de tanto aí bater, a cada verdade que suponho ter, a cada razão de que suponho ser indiscutível dono.


Aprender tudo é morrer...como um curioso de verdade(s).



quarta-feira, 7 de abril de 2010

ESCÂNDALO SEM ORIGINALIDADE





“Por várias vezes falou em se lançar ao jornalismo, e sempre seus amigos lhe diziam: evita fazer isso. Seria a sepultura do belo. (...) Não resistirias à constante alternância de prazer e de trabalho de que é feita a vida dos jornalistas, e resistir é o fundamento da virtude. Ficarias tão encantado por exercer o poder, por ter direito de vida e morte sobre as obras do pensamento, que te tornarias jornalista em dois meses. Ser jornalista é passar a procônsul na república das Letras. Quem tudo pode dizer chega a tudo fazer. (...) Já tens em demasia as qualidades do jornalista: o brilho e a rapidez do pensamento. Não te privarias nunca de um dito do espírito, embora fizesse ele chorar a um teu amigo. (...) O jornalismo é um inferno, um abismo de iniquidades, de mentiras, de traições, que não se pode atravessar e de onde não se pode sair puro, senão protegido, como Dante, pelos louros divinos de Virgílio”.

HONORÉ DE BALZAC (Ilusões Perdidas)



Chico Vivas




Se é para vender jornal, então uma foto...sensacional(ista), uma apenas a mais na longa lista de clichês à venda nesse diário comércio entre a nossa avidez, insaciáveis pelo que quer que seja (bem vendido, bem fotografado) e a necessidade dos fabricantes de que-quer-que-seja(s) em rolar os estoques.

Assim, que tal a foto de um homem, dos mais comuns, aparentemente; de altura, por enquanto, imprecisa – e talvez esse seja mesmo um detalhe sem maior importância, a não ser que pouco ou nada sobre ele se tenha a dizer, o que fará de um ou outro centímetro motivo de acaloradas discussões? E ele está, como se a nossa espera, no alto de um prédio, algo desequilibrado (não o prédio), não se sabendo ao certo se esse seu caráter trôpego diz respeito ao seu corpo eventualmente alcoolizado ou ao seu espírito pusilânime. De fato, se fato realmente há aqui, dá a impressão de que, a qualquer instante, ao menor sopro, sob a inspiração da plateia que embaixo vai aumentando, impossível já contá-los, mais ainda de se dizer de onde surgem, ele poderá cair: que tal uma foto assim?!

A foto enquadra o fato de um ponto de vista “baixo”, um tanto distanciado, mas presente o bastante para não deixar escapar à lente um lance sequer. Pode-se ter a visão da multidão, clamando o que a foto dificilmente revelará; e com essa posição também se cria a ilusão de que a altura é bem maior do que deve ser na realidade – e leitor nenhum que se preze, devorador desse jornal de cotidianos flagrantes, um jornal que não preza tanto assim seus leitores, embora lhes ofereça banquetes bizarros, vai até lá, próximo do homem, para tirar a prova, com régua na mão, de sua altura de verdade. O ângulo escolhido alcança seu objetivo de tornar tudo o que vê, tantas vezes um quase-nada, mais grandioso do que é, e é possível que ali nada haja de tão grande assim: nem o prédio em si, que pode ser menor do que aparenta, nem o homem em si, que pode ser somente de altura medianamente baixa, e até mesmo a tal multidão, então supervalorizada em seu número de eventuais passantes e de titulares desses flagras rotineiros.


Quem vier a ler o jornal, mais interessado na imagem e buscando as palavras só para confirmarem que seus olhos não se enganaram, de cara, desvenda esse mistério-de-rua, enigma ao ar livro: é tão-só mais um homem qualquer, no uso legítimo de seu direito de viver com dignidade ou, não a tendo mais, de morrer à hora em que desejar; ou ainda, não pretendendo deixar tão cedo (não se conhece ao certo sua idade) esta vida, deseja apenas para si mesmo a atenção dos outros, mesmo que tantos desses alheios já sejam quase profissionais em se aglomerarem, atendendo a um chamado de sua natureza, amante de qualquer fato que fuja, mesmo que só aparentemente, a sua própria rotina, embora eles mesmos experimentem, sem toda essa alegoria pública, mortes diárias, carentes, no entanto, desse espetáculo.



O homem no alto do prédio – que, aliás, é alto mesmo, e não um truque do clichê vespertino, ainda que não dos mais elevados, ao menos se tomarmos como medida referencial os mais altos prédios – é alto, ainda que, mesmo acima da média da altura dos homens comuns, não seja, entre os agigantados (uma delícia para o jornal), páreo para este grandalhões de livro de recordes; e esse homem não alimenta qualquer intenção de se atirar daquelas alturas, seja porque encara sua vida medíocre de homem assim com subida dignidade (quantos lances, essa “subida”!), seja porque, discreto na sua vida diária, tanto que não se o nota quando ele próprio se faz passar por eventual pedestre, arrancado de suas divagações habituais por um homem no alto de um prédio, hesitante, queira viver apenas alguns minutos de exibição fugaz.


Ele lá está justamente para salvar uma vida: mas que não se diga isso ainda aos observadores da cena, pois seria, sobre suas cabeças acaloradas, um balde de água das mais frias (sem o devido refresco), fazendo-os se dispersarem, inviabilizando então a provável sensação da foto e, em consequência, a venda provável de jornais, bem acima da média dos dias em que as fotos na primeira página só estampam as baixezas rotineiras, inclusive a de homens “altos” circunstancialmente rebaixados à altura dos mais comuns.


E não é a vida de um outro homem, numa solidariedade entre semelhantes, que está em perigo, pondo, na tentativa de salvá-la, em risco a própria vida do homem que vemos e do qual já sabemos ser alto para a média dos homens conhecidos por serem medianos. Esse homem que insistentemente vem se fazendo citar aqui, desconhecido seu nome ainda, está ali para salvar a vida de uma ave potencialmente suicida, que a todo instante ameaça se atirar. Como a tal ave, um pássaro canoro em crise durante seu período de muda, mesmo sendo, em tamanho, páreo para seus semelhantes, é, ainda assim, pequena em demasia para os enormes vãos dos olhos da multidão faminta que só enxerga, na cena, o homem, e nada vê da ave, porque muda, podendo ouvir do pássaro suas despedidas afinadas, como se um cisne em canto derradeiro.


Para apressar a história, porque isso é jornal e não um livro de mistério – um livro desses quer prender o leitor o máximo que pode, já o jornal precisa apenas de sua fidelidade diária – e porque, embaixo, os repórteres, uma multidão deles, entre os quais os profissionais que chegaram de pronto e os amadores que sempre estão de passagem, gritam que precisam entregar a matéria, como se pedissem urgência ao homem, e este, como se num ato de suprema coragem (que leitores elevados de jornais baixos preferem chamar de covardia), faz, lá no alto, uma manobra arriscada para salvar o pássaro, quando a ave já estava em pleno salto mortal.


Sem asas, o homem cai. Salva a ave, satisfaz muitos desejos, concentrados nos jornais, com uma sequência de fotos sensacionais. E ainda mais do que o esperado em ocasiões assim, já que a primeira página vai estampá-lo no chão, cercado pela multidão reunida artificialmente (porque muitos só esperavam o salto, sabendo que dali, agora, do chão, ele não passaria), com o pássaro, vivinho da silva, na mão, tendo, repentinamente, recuperado a voz para um réquiem.


Louve-se o jornal por, num esforço extremo de reportagem, sensacional mesmo, ter descoberto que o tal homem, anônimo até então, apesar do autor da matéria descrevê-lo como um suicida em potencial, que nem a beleza de um pássaro heroico conseguiu salvar do seu desejo de morrer por ter, cantor, perdido a voz, tinha, como todo homem, de qualquer altura, um nome: e tinha nome de ave – chamava-se Maria. Seu sobrenome, comum demais para um cantor de hoje em dia, mesmo os muito vivos, um Silva mediano, desapontou, quanto às vendas, o jornal.


Mas, sem escapar de mais um clichê, amanhã, todo leitor sabe, em suas angústias repetitivas, é um outro dia – como também sabe a multidão de homens eventuais.




CHICO VIVAS


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