domingo, 23 de outubro de 2011

QUE HOMEM É ESSE?!








Não sendo eu, para o bem do mundo, que muito precisa disso, em meio aos males que lhe são próprios, tão “original”, diferente, em tudo, dos demais, creio que compartilho com outros, talvez muitos, a mesma fantasia – que mantém um inequívoco elo com a lógica(?) infantil: fechar os olhos e, ao abri-los novamente, tudo (nesse caso, o que ora nos desagrada), como que por encanto, tenha desaparecido. Se for algo mais sério, até admitimos trocar o simples piscar de olhos por uma (desde que não tão longa assim) noite de sono: dormir com o problema – que não é das melhores companhias, ainda que haja quem defenda a tese de que problema bem maior é não ter companhia alguma – e, com o mesmo “encanto” dos tempos de criança, acordar sem ele, com humor regenerado e com promessa e longa duração, daí por diante.


Se assim fosse, seria o fim dos insones; inclusive daqueles, claro, para os quais, noites em claro, o problema é justamente o não poder dormir, quando se quer. Dormiríamos todos, certos de que, daí a pouco, o despertar viria com boas-vindas para dias devidamente solucionados em suas questões (sempre) prementes. Mas, igualmente, se fosse assim, quanto da vida não perderíamos? Porque, durante esse sono restaurador, a via continua a passar, com os “bens” que lhe são próprios também.


Tenho a sensação (e estou bem acordado ao dizer isso) de ter “dormido no ponto”, ao ler o que você tem escrito: e, pelo que pude entender, são apenas amostras grátis, em pílulas, de um elixir oceânico.


Tuas palavras (me) são, gramaticalmente, corretas – e insisto nessa “tecla”, apesar de, provavelmente, algumas delas lhe faltarem, no teu ato de escrever. São, sentimentalmente, sinceras – e ainda que muitos forcem o dedo justamente nessa tecla, acabam, pela pressão demasiadamente exercida, por expor o contrário: um artifício desnecessário para parecerem verdadeiros. São, estilisticamente, interessantes – e lembro, aqui, as palavras de Buffon: “O estilo é o homem”.


Gostaria de ter testemunhado a transição do menino (que, é provável, também, um dia, acreditou que bastaria fechar os olhos para ver, ao abri-los, o mundo diferente) para o homem que, sem perder o elo com uma infância que lhe deve ser cara, ainda fecha os olhos, mas para ver(-se) melhor; ainda dorme, mas para estar bem acordado no outro dia.


Dos males, enfim, o menor – sempre. Ao menos, posso testemunhar o bem que a vida te fez; te faz. O bem que nos faz o que a vida te tem feito, mesmo que, em alguns momentos, desejes que isso ou aquilo, como por encanto, desapareça.

Forte abraço.

CHICO VIVAS

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A SESSÃO VAI COMEÇAR







Quem já viveu bastante – embora, para nossa humana condição, com tantas ambições e projetos a serem cumpridos, nunca seja demais viver – sabe bem o que é um circo. Provavelmente, a mais clássica das bagunças, devidamente organizada, segundo critérios muito próprios, a ponto de ter-se tornado metáfora, sempre na ponta da (nossa) língua, quando, diante de uma situação sobre a qual não exercemos imediato controle, perguntarmos, já sabendo, de antemão, a resposta: “que circo é esse”?!


Mas, antes do espetáculo propriamente dito, é preciso armar o dito circo: e isso, na minha memória, passa ao largo da ação organizada e empresarial de um Cirque du Soleil, com sua pontualidade (canadense?), com seu fausto pictórico e com toda sua pirotécnica tecnológica. O “meu circo”, antes de, efetivamente, se instalar, manda sua vanguarda – operários agora que, mais tarde, serão também mágicos, malabaristas, trapezistas, domadores de feras; afastadas, circunstancialmente, dessas tarefas, as mulheres, mesmo as eventualmente barbadas.


Primeiro, escolhe-se o lugar: amplo, sem aclives ou declives, e mais plano possível; longe o bastante para não atrapalhar a vida da cidade, perto o suficiente para atrair o público. Depois, é limpar o terreno; cravar, sem dó, as estacas, levantar os mastros e içar a velha lona remendada de tantas jornadas a fio.


Enfim, o espetáculo está pronto, como tem estado há gerações, quase sem alterações significativas nas piadas, nos truques, e até nas lágrimas que os dramas circenses arrancam, mesmo de corações tão contemporaneamente duros.


Uma hora, o circo tem de ir... E o que deixa para trás é sua presença virtual, nas marcas no chão, até, ao menos, que o tempo, a melhor das motoniveladoras, apague aquelas lembranças para dar lugar a outras.


Um dia, amigos estão sempre juntos: rindo junto, como se um ao lado do outros num circo constante; em alguns casos, chorando juntos, porque isso também faz parte do espetáculo de viver. Outro dia, como se cada um, vindo de mesmo circo, tivesse que experimentar cada qual a sua aventura de criar o próprio show, deixam de rir ou chorar juntos. No entanto, ficam marcas...

Algo do meu “terreno” já foi limpo, e muitas vezes: e, com isso, muita memória se foi. Porém, não preciso de muito esforço para ver ainda as marcas que você deixou – quando rimos juntos; quando choramos juntos.


Sei que você precisa de uma plateia cheia e não apenas de lugares vendidos, sem a respectiva presença do público pagante. Perdoe-me a ausência nas “sessões” do teu circo. Saiba, contudo, que quando rio – já não é um mar de risos, mas ainda dá para fazer, de vez em quando, uma “onda” -, deveria pagar direitos autorais a você, porque o que faço é imitar os muitos espetáculos de alegria que me proporcionou.


E meus aplausos pela continuidade das tuas mágicas (porque viver é um grande mistério; o truque, ao mesmo tempo, mais velho do mundo e ainda o mais insondável de todos) está garantido, mesmo que em lembranças distantes ou em orações caladas.


Beijos. Saúde!


CHICO VIVAS

domingo, 25 de setembro de 2011

OUR[AÇÃ]O AGORA PARA A PRATA QUE VIRÁ (e isso não me sai da cabeça)



Glitter Text Maker









Não sou dono de uma mina de diamantes, e minhas palavras nada têm de “brilhantes”: são meros artifícios, espécie de palavras-espelhos que refletem, num mecanismo intrincado demais para se tentar explicar (em palavras), os labirintos da “mina” que sou (oh, as gírias!) de palavras espelhadas, facilmente confundíveis, quando, num jogo de luz, mostram-se com muitos lados, como um diamante já lapidado.


Lápis à mão, lápis sextavado, com meia dúzia de lados, parecendo um objeto-brilhante, rabisco...como se fosse menino-aprendiz dos primeiros traços, e tão menino que, apesar dos anos-em-série, sou capaz de acreditar, em meio ao barro constante, à terra incerta, à poeira do lugar, ao suor dessa lida subterrânea, à exaustão da procura, à frustração dos inevitáveis enganos, e até apesar da vitória pelos eventuais achados, que haja palavras-diamantes: aquelas que longamente se formam, resultado de outras (de)composições, maturando-se ao comprido das eras, e duras – duras e quase impenetráveis -, e duram...


Se eu tivesse uma mina de diamantes (de verdade) e enviasse, em datas certas, todos os anos, joias em brilhantes, preferiria receber, em troca, um(a) arte(de)fato em espelho: de saída, eu o acharia muito “polido”; depois, pensaria o quanto há nisso de “reflexão”. E mesmo desconfiado de quão caro possa ter custado, não o devolveria.


Se eu tivesse uma gíria (oh, as palavras antigas!), eu diria: joia!


Se eu tivesse uma palavra, ah, logo quereria uma mina delas – e nem mesmo tenho jeito com os espelhos, essas palavras tão delicadas que nos mostram de frente e também nos mostram de verso, ainda que não percebamos a rima.


Ah, se eu tivesse jeito com o ouro! Mesmo sem os brilhantes e não tendo deles uma mina, roubaria do sol, em início ainda de jornada, com um pedaço de espelho em sua direção, um punhado de dourados reflexos – e se dormisse no ponto (e lá se vai a hora!), esperaria o fim do dia e furtaria, do mesmo rei, um pouco do seu brilho, ainda que, agora, já metal envelhecido.


Ah, se eu tivesse no peito uma lua! Mesmo não sendo proprietário de uma mina de prata, recolheria do tronco as palavras natas – que são como prata-da-casa – e as espalharia em espelhos fragmentados como um pavimento da Via Láctea.


Ah, se ao menos eu tivesse tempo... E nem precisaria de uma mina dele! Eu repicaria os sinos e recolheria o som de bronze: sei que não é metal dos mais nobres, mas com isso eu conseguiria, pela dureza, pela durabilidade, uma palavra que não desapareceria, como o reflexo no espelho da memória de uma face já distanciada.


CHICO VIVAS

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PALAVRA DADA


Aos amigos, pela lembrança...


Parece não ficar muito bem a quem, aparentemente (e as aparências “contam”), tem muito a dar, tirando do que tem, dar muito. E assim porque se supõe que, por mais que se tire do que se tem, tendo-se então muito, tirar-se-á pouco, demonstrando-se, desse modo, à parte a gentileza (aparente), que se deu por (se) dá (por dá cá aquela palha, se tanto), não tendo a subtração alterado o total. E se, querendo-se escapar dessa armadilha, dá-se pouco, quase nada, como se fizesse pouco caso, desejando-se, nessa proporcionalidade inversa, “dar” mais, quanto menos, verdadeiramente, se dá, cai-se noutra – que não é outra, senão a de que, perdoando-se o pouco dado por quem já tem pouco, não se justifica que se dê tão pouco, quanto se tem tanto.


O que tenho – aparentemente muito, aparentemente muitas – são palavras; embora nem todas igualmente valiosas; talvez mesmo bem poucas assim, como reluzentes moedas em meio a centenas de níqueis tão desgastados que já não se vê seu valor de face, e até o verso, essa coroa da cara, carecer de nitidez mínima que lhe garante uma rima qualquer.


É possível que, a essa altura, já tenha dado muitas delas, até de sobra, desejando, quem as recebe, que eu tivesse preferido dá-las menos – um(a) OBRIGADO, e nada mais. Para mim, não tendo mais o que oferecer, sempre me parecem (ah, as aparências!) poucas, por mais que perceba, mesmo sem me sentir “aliviado” pelo peso menor, dada a diminuição do estoque, já serem tantas, a ponto de alguém, solidário com outros, em ato heróico, querer que lhe dê todas as palavras que tenho, livrando-os de terem de aguentar frações que dão a impressão de jamais acabar.


Não dou! Dando-as de uma só vez, que mais eu teria para dar?


E só para pirraçar, dou mais uma, e uma que já foi dada: OBRIGADO, uma vez mais.


E que não se tenha a ilusão de que isto acaba por aqui...


sábado, 20 de agosto de 2011

JOGA AS TRANÇAS, RAPUNZEL







Quando a moda sobe à cabeça, aí as coisas ficam diferentes; mas não é preciso se preocupar.


Há moda para os cabelos – pelo menos para os que têm a sorte de tê-los e, entre estes, até, por vezes, se reclama ora do calor, se os cabelos estão compridos, ou de como eles estão demasiadamente curtos, custando para crescer: e tudo isso faz parte da moda.


Um dia, o certo é tê-los lisos – e se já se os tem, naturalmente assim ou não, resultado de outra moda, encrespados, é hora de deixá-los com aparência escorrida; se eles já formam cachinhos e se diz que a moda agora é mantê-los lisos, quanto trabalho!

E essa moda de mudar a cada estação passou de fora da minha cabeça para dentro dela: troca-se de ideias – mesmo que não se as divida com mais ninguém – “esticando-as” para adaptá-las ao estilo vigente ou enrolando-as (e enrolando-se todo nisso) para lhes dar aquele aspecto de caracóis naturais, mesmo que não passe pela cabeça viver sempre assim, como um, encaracolado dentro de si mesmo.


Que os pensamentos mudem é tão saudável quanto cuidar bem dos cabelos, com a limpeza constante ou com cortes que (nos) façam sentir melhor (ainda que isso nos faça parecer apenas mais um entre tantos com cabelo assim). É preciso, porém, cuidar para que não se percam algumas ideias (quando se começa a perder os cabelos: alerta!) e que não se as lave com excessiva frequência: é bom ter alguns pensamentos “sujos” de vez em quando, até para destacar, pelo contraste, os limpos que, às vezes, só o são por causa de uma lavagem momentânea e tão superficial quanto estas ideias aqui, que ora me passam pela cabeça, talvez porque, a essa altura, independentemente da estação, quase só lhe reste ter ideias, certos pensamentos (ainda que errados, logicamente), já que os cabelos...


Sabe-se que os cabelos, quando somos jovens demais para nos preocupar com o que temos na cabeça, são, naturalmente, mais finos, com fios assim; mais tarde, a coisa toda engrossa, os fios se emaranham em “nós”, as ideias se confundem entre si, os pensamentos se misturam como um bando de caracóis despenteados.


De início, nossa cabeça é mais “verde”, não só porque esta é a cor que antecipa a madureza e as pré-ocupações, inclusive com os (próprios) cabelos, inclusive, como num pesadelo, com a perda deles, mas também por ser este, simbolicamente, o tom das esperanças: e até da esperança de ter sempre cabelos ou, numa cruel ironia com quem já não os tem como gostaria, de arrancá-los, menos por causa das preocupações que, enfim, chegaram, mas, sobretudo, porque assim, sem eles, ou com pouco deles, não se precisa mais ter de cortá-los, ou apenas fazer isso raramente, tornando-se, entre tantas, uma preocupação a menos.


Quantos cabelos fomos deixando ao longo do caminho!... Em relação aos pensamentos, como se pode ver, a diferença não é tanta, e isso me faz ser reconhecido a qualquer tempo como “aquele de cabelos curtos”, quando, na verdade, se pensa nas minhas ideias já fora de moda. Nunca fui mesmo de tê-los muitos, nunca fui de ter muitas ideias, embora, publicamente, procure exibir os que ainda tenho, as que ainda me sobram.


Os sujos (cabelos? pensamentos?) eu guardo só para mim, como recordação antiquada de uma época, já quase uma bizarra coleção desfiada.


CHICO VIVAS

sábado, 16 de julho de 2011

“SOMOS UM” PODE SER UM ERRO SINGULAR








Trocar seis por meia dúzia parece ser coisa de tolo; ou melhor, de um ingênuo carregado de infantilidade, como, aliás, são justamente os ingênuos, sendo a ingenuidade, a qualquer idade, a insistência, mesmo que contra a própria vontade, da infância em se fazer presente, quando seu tempo já passou, ou, fazendo-se então valer a vontade própria, quando se apela para um comportamento ingênuo como artifício de subtração do tempo que correu desde que se era (que se foi) criança: de qualquer modo, o que se consegue, despertando-se risos em graus diversos, indo de uma doce (e quase piedosa) constatação até o escárnio declarado (e que pode se evidenciar por uma piedade exacerbada), é parecer um tolo.


De fato, sem ainda ter avançado na matemática, valendo-se tão-somente do primarismo (será inato?) da adição e da subtração, já sendo o ato de multiplicar e de dividir uma experiência demasiadamente sofisticada, seis – que requer mais que todos os dedos de uma mão para ser contado – soa(m) bem mais do que meia dúzia: e esta, mesmo significando (o que nem sempre já se sabe) doze, expressa-se com certo (ou estou errado?) unitarismo (uma dúzia!), além de que, aqui, sequer é uma dúzia inteira, ficando toda a coisa pela metade.


Curioso é que, quando se trata da nossa história pessoal, por mais (anos) que já tenhamos vivido, “uma vida (inteira)” sempre surge como o seis em relação à meia dúzia. E chegamos, como se imbuídos da mais formal das lógicas, quase a pontificarmos sobre o bem pensar, a dizer que não importa o quanto se viveu, e sim “como se viveu”, como todos esses anos foram vividos, pois, pergunta-se, já respondendo, de que adianta ter vivido tanto tempo, se não se aproveitou essa longevidade para se criar uma história (com muitas histórias dentro dela), importando mais uma história consistente, mesmo que, em resumo, não comporte tantos anos assim.


Quem, no entanto, estará disposto a trocar anos e mais anos, ainda que a rotina de hoje já permita lançá-los, numa projeção do futuro, na conta dos anos mais rotineiros de nossa vida, por uma história curta, porém de densidade indiscutível, daquelas histórias que, se aproveitadas como inspiração para um filme, daria uma sequência frenética de acontecimentos de tirar o fôlego, incluindo-se aí, quem sabe, beijos cinematográficos de tirarem o fôlego, já que, na real, não há como se interromper um beijo no ato para, em seguida, querer retomá-lo do mesmo ângulo, ar recuperado, sob o risco de, perdida aquela deixa, não se conseguir mais retomar o fio da meada, terminando tudo num arremedo do mais amador (e isso não é um elogio) dos “teatros’.


Vidas intensas, independentemente dos anos vividos, contam-se nos dedos (como quase tudo, desde que não seja em número muito elevado, pois se pode perder a conta), embora devam ser mais do que meia dúzia. Vidas longas, à parte a intensidade com que se passou por elas, não são raras. Vidas que associam tempo e ação, anos e história(s) não podem ser “contadas” aqui, por falta de tempo (porque talvez já o tenha perdido demais), ou por falta de fatos relevantes.


Viver a dois é (deve ser) melhor quando não se cai no conto do ingênuo, e se quer viver duas vidas como se fossem apenas uma, cedendo mais à poesia (e não das mais originais) que à experiência pessoal: isso, além de não ser prova de amor, é prenúncio de erro na mais rudimentar prova de matemática.


Que bom que vocês são dois: nessa matemática, saímos ganhando, mesmo que adoremos vê-los juntos, como se um fosse(m).

CHICO VIVAS


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